Memórias de um Revisor: recolha de dados ou coleta de dados?

Memórias de um Revisor: recolha de dados ou coleta de dados?

Gostaria de compartilhar este e-mail, que enviei a uma cliente, relativo a serviço de tradução de um TCC escrito em Português de Portugal e traduzido para Português do Brasil. Exponho, por meio dele, questões relavantes sobre diferenças entre Português do Brasil e Português de Portugal.

Estive pensando bastante sobre as variações “recolha” e “coleta” em Português do Brasil, cheguei a fazer uma pesquisa de artigos acadêmicos sobre o tema, na área de variação linguística, mas não encontrei muita informação. Decidi, então, fazer uma simples pesquisa.

Se você digitar no buscador do Google o termo “recolha”, aparecem cerca de 2.440.000 resultados. Destes, absolutamente, quase todas as primeiras 10 páginas contêm sites com a terminação PT, ou seja, referentes a Portugal. Os registros não apontam sites brasileiros.
 
Obs: não gosto de usar a internet como ferramenta para essas deduções, mas, se eu fizesse um estudo categórico sobre isso, provavelmente, eu levaria meses pesquisando…
 
Obviamente, o termo existe, sim, no Português do Brasil e refere-se a formulações que, às vezes, concorrem com o termo “coleta”, muitas vezes em menor frequência (tenho essas constatações devido à minha experiência como falante nativo, bem como devido às minhas desconfianças como Linguista).
 
Nós costumamos dizer/escrever “o gari RECOLHEU o lixo da rua”, por exemplo. Ou, quando uma mãe brasileira quiser ser mais imperativa com o seu filho, ela pode dizer/escrever: “recolha estes brinquedos espalhados pela casa, agora!” ou, então: “recolha esta sujeira, menino”. Mas o uso cotidiano tem sido marcado,também, pela variação do verbo “pegar”. Exemplos:
  
Menino, pegue estes brinquedos espalhados pela casa! (Gramatical para o falante nativo brasileiro)
Menino, recolha estes brinquedos espalhados pela casa! (Gramatical para o falante nativo brasileiro)
Menino, colete estes brinquedos espalhados pela casa! (AGRAMATICAL para o falante nativo brasileiro)
 
O gari recolheu o lixo da rua. (Gramatical para o falante nativo). (Nesse caso, a recolha denota maior especialização do que, simplesmente, “pegar”, acredito*)
O gari pegou o lixo da rua.(Gramatical para o falante nativo brasileiro)
O gari coletou o lixo da rua. (Tenho a impressão de que essa oração não é muito usual para o falante nativo brasileiro, observei outros tipos de ocorrência substantivadas como “coleta de lixo” ou, no caso de verbos, orações como “a administração “coletou” o lixo”. Não encontrei muitas ocorrências de “coletar” para gari.
 
* Penso isso em relação ao uso de recolha para a profissão de gari. Também podemos constatar que o uso de “recolha” é mais formal do que “pegar”.
 
O pesquisador coletou os dados para desenvolver a pesquisa. (Gramatical para o falante nativo brasileiro e muito utilizado por pesquisadores e cientistas brasileiros)
O pesquisador recolheu os dados para desenvolver a pesquisa. (Quase AGRAMATICAL para o falante brasileiro pesquisador*)
 
*Revisei, nos últimos anos, mais de 50 mil laudas de trabalhos acadêmicos de cientistas e pesquisadores brasileiros de vários estados e universidades: USP, UNB, UFRJ, UFMG, UFBA, UFG etc., mas nunca me deparei com o termo “recolha de dados”. Pesquisei bastante na internet e encontrei uma pesquisadora que, por acaso, utilizou esse termo, mas ela utilizou-o, apenas, 1 vez ao longo do texto dela e variou o termo com “coleta”, que apareceu 16 vezes no texto (veja:)
 
 
Outra observação interessante que notei, ao pesquisar as ocorrências desses termos no Google:
 
no caso de busca por “coleta”, no buscador do Google, aparecem  29.900.000 resultados. Destes, praticamente, todas as ocorrências das 10 primeiras páginas são com terminação BR, ou seja, são referentes a sites brasileiros.
 
Para o termo “coleta”, o Google aponta as seguintes combinações:
 
Coleta seletiva, coleta de sangue, coleta ambiental, coleta de lixo, coleta seletiva (todas são aceitas pelo falante brasileiro, ou seja, pertencem ao universo de formulação de Português do Brasil).
 
Para o termo “recolha”, por outro lado, o Google aponta formulações como:
 
recolha de dados e recolha de gelo.
 
Obviamente, aparecem menores formulações com “recolha”, pois o idioma do meu navegador está em Português do Brasil, talvez se você fizer essa pesquisa de uma PC em Portugal, esses dados oscilem.
 
As combinações referentes à recolha aparecem, somente, em sites de Português de Portugal e não fazem o menor sentido no Brasil. Por exemplo, o termo “recolha de gelo”, parece outra língua (e realmente é) ou parece uma má formulação de um estrangeiro em nível intermediário ou básico, tentando organizar alguma sentença em Português do Brasil. Esses termos são todos “agramaticais” para o falante brasileiro, ou seja, o brasileiro não reconhece o sentido desses termos, embora eles façam sentido em Portugal, o que revela, mais uma vez, em nível pragmático (uso da língua) e semântico (referente ao sentido de vocábulos/períodos…), o grande distanciamento entre essas duas línguas.
#Memórias de um Revisor: recolha de dados ou coleta de dados?

5 dicas para quem pretende escrever um livro

5 dicas para escrever um livro

5 dicas para quem pretende escrever um livro

1. Elabore um sumário prévio dos capítulos ou seções

Organizar um livro conforme capítulos ou seções é importante, o que permite facilitar o processo de leitura do interlocutor. Para que o conteúdo do livro seja bem organizado, seguir essa orientação é fundamental.

Mesmo que o seu livro, no caso de literatura, não siga uma “lógica” temporal ou cronológica, esse processo de organização permite delimitar o que deverá ser realizado, evitando divagações.

Mesmo que o sumário que você elabore não seja definitivo, vale a pena fazer um esboço, que constitui a materialização desse processo lógico de organização.

2. Não se preocupe tanto, inicialmente, com forma

Algumas pessoas conseguem, ao escrever, adequar forma e substância. A forma refere-se a questões gramaticais, estilísticas, ortográficas e de pontuação. O substância, por sua vez, refere-se ao conteúdo do texto. O nosso pensamento é repleto de incoerências.
Quanto mais treinarmos o nosso cérebro para evitar essas “falhas”, maior eficácia teremos nesse processo. Mas, de qualquer maneira, em relação a textos, esse processo jamais seria absoluto, seja este redigido por um doutor ou mesmo um grande escritor. Todo texto precisa ser revisado e é um processo sempre inacabado. Portanto, primeiramente, é mais importante escrever e, posteriormente, lapidar o que foi escrito. É claro que não interprete ao “pé da letra” esses dizeres. Não quero dizer que se deve fazer um esboço caótico do texto, ou que não se deva policiar para alguns deslizes. Na verdade, esta dica articula-se bastante à próxima seção, pois muitos deixam de escrever
porque gostariam de, em um primeiro momento, obter resultados absolutos e ditos “perfeito”; isso seria possível?

3. “Feito” é melhor do que “perfeito (ou melhor, não feito)”

Não se deve interpretar essa afirmação e banalizá-la com a justificativa de que feito equivale a “qualquer coisa” ou a “mal feito”. Definitivamente, não é isso que quero dizer. No entanto, algumas pessoas se cobram muito e acabam deixando de realizar algo em virtude de ter uma autocrítica muito severa consigo mesmas. Como o texto é um processo, é importante saber que ele não será NUNCA absoluto e perfeito. O que é possível fazer é lapidá-lo, mas isso exige vários processos. Não pense, também, por outro lado, que quero dizer que é preciso de um trabalho imensurável que seria impossível de ser finalizado.
Às vezes, algumas questões em um livro devem ser deixadas para outra etapa, para uma segunda edição. Deve-se, em algum momento, “parar” esse processo.

4. Distribua a sua produção

Não pense que o seu livro será redigido em, apenas, um dia, mesmo que isso gere ansiedade imensa. Escrever um livro é um processo. Comprometa-se a redigir um número
específico de páginas por dia. E se sinta feliz se tiver produzindo, por exemplo, 1 página por dia. Ao final de um mês, você terá 30 páginas redigidas.

5. Encaminhe o seu texto a um revisor

Após finalizar o processo de redação do livro, encaminhe-o a um revisor e, também, a outros leitores, para que você consiga lapidá-lo.