O memorial é um documento importante para relatar a trajetória de um pesquisador ou estudante ao longo do processo de formação (e pesquisa)/carreira. É comumente utilizado em concursos de Professor Titular, Processos de Livre-docência, Progressões Funcionais e, inclusive, em Processo Seletivo de Mestrado e Doutorado.
Observo, na prática, grande parte dos memoriais encaminhados para Revisão com os mesmos tipos de problemas, os quais se repetem a cada parágrafo. Com base nessa trajetória, compartilho um guia para nortear pesquisadores em relação à escrita desse gênero (eu sou muito querido mesmo, eu sei =)), com base em comentários reais deixados em revisões de memoriais ao longo de minha carreira como Revisor (eu “memo”). Apresento cada comentário juntamente ao devido parágrafo original redigido pelos autores.
Características de um bom memorial acadêmico
Antes de adentrar nos problemas específicos, especifico três critérios que utilizo para nortear as minhas análises críticas de memoriais:
- precisão de fatos: datas, títulos, instituições e cargos completos;
- enfoque no autor: narra-se no memorial a trajetória de quem o escreve, e não a biografia de terceiros;
- precisão científica: não basta citar que um trabalho existe e onde ele está arquivado, é preciso explicar, em poucas linhas, do que ele trata.
A seguir, explico os principais problemas analisados, que revelam, na prática, o que ocorre quando esses três critérios não são observados.
1. Termos genéricos que enfraquecem a precisão do texto
Trecho do memorial: […] “iniciou sua trajetória científica na Universidade”
Comentário – “Sugiro o termo ‘trajetória acadêmica’.”
O problema: o adjetivo “científica” é mais restrito do que a trajetória que o parágrafo de fato descreve, que inclui graduação, ou seja, formação, e não apenas pesquisa. Usar “acadêmica” contempla, com mais precisão, o conjunto de atividades (ensino, formação, pesquisa, extensão) que será narrado no memorial do início ao fim.
Como resolver: verifique cada adjetivo de abertura questionando-se se ele descreve o conteúdo a seguir, ou apenas parte dele.
2. Lacunas de informação: datas e titulações não especificadas
Trecho do memorial: “onde realizou sua graduação entre 1977 e 1979.”
Comentário – “Sugestão: ‘onde obteve o título de graduação em (especificar)…'”
Trecho do memorial: “cursou mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre ano e ano.”
Comentário – “Especificar. Exemplo: ‘Mestre em…'” Trecho do memorial: “orientado pelo Professor […]”. Comentário – “Sugiro especificar o título de doutor se for o caso: ‘Professor Doutor’.”
O problema: todos os três comentários apontam a mesma falha estrutural — o autor registrou que algo aconteceu (uma graduação, um mestrado, uma orientação), mas não registrou os dados que dão a esse fato valor probatório perante uma banca: em qual área foi a graduação, em qual área foi o mestrado, qual é a titulação completa do orientador. Um memorial não é uma narrativa livre; é, em essência, um documento de prova, e cada afirmação sem dado específico é uma afirmação que a banca não consegue verificar.
Como resolver: ao terminar cada seção biográfica, faça uma varredura específica por três tipos de lacuna: (1) datas aproximadas ou faltantes, (2) áreas de titulação não nomeadas (“graduação” sem dizer em quê) e (3) nomes próprios sem o título acadêmico completo. É um erro fácil de cometer porque o autor “sabe” a informação de cor e esquece que o leitor não sabe.
3. Foco desviado para personagens secundários
Trecho do memorial: “orientado pelo Professor […] — falecido em 2020 na cidade de […]”.
Comentário 5 – “Essa informação não é relevante para este memorial. Perceba que você especifica mais sobre um terceiro do que sobre o alvo do texto.”
O problema: este é, talvez, o erro mais revelador de todo o documento, e um dos mais comuns em memoriais escritos por autores generosos com seus mentores e colegas. O parágrafo dedica mais detalhe (ano e cidade de falecimento) ao orientador do que à própria formação do autor do memorial. O interlocutor, ao ler esse trecho, aprende mais sobre a biografia de um terceiro do que sobre o candidato.
Como resolver: para cada menção a um terceiro (orientador, coautor, colega), pergunte: “essa informação evidencia algo sobre a trajetória do autor do memorial ou é apenas uma homenagem pessoal?”. Homenagens podem vigorar, por exemplo, nos agradecimentos, não no corpo do texto.
4. Falta de precisão científica e uso de links soltos no corpo do texto
Trecho do memorial: “Sua dissertação, intitulada ‘Integral multiplicativa e teoria do controle em grupos de Lie’, contém 99 páginas e está disponível no acervo digital de produções científicas da Unicamp.”
Comentário 6 – “Faria muito sentido especificar, em duas linhas, por exemplo, a temática investigada.”
Trecho do memorial: “contém 99 páginas e está disponível no acervo digital de produções científicas da Unicamp.”
Comentário 7 – “Faz sentido inserir o link em nota de rodapé e retirar essa informação. Em vez de apresentar essa informação geral, trate do teor do trabalho, em termos científicos (resumo de 2 linhas, por exemplo).”
Trecho do memorial: “produções científicas da Unicamp.”
Comentário – “Você pode indiciar o link de acesso em nota de rodapé aqui.”
Problemas: os três comentários, nesse sentido, revelam que o texto informa onde encontrar o trabalho, mas não informa o que o trabalho diz. Número de páginas e local de acesso são metadados bibliográficos, relevantes para uma nota de rodapé, mas irrelevantes como conteúdo de corpo de texto, que deveria estar reservado ao mérito científico. Além disso, links e referências de acesso, quando inseridos no meio da frase, rompem o ritmo de leitura de maneira a desviar a atenção do avaliador em relação à contribuição científica.
Como resolver: sugiro apresentação de localização/acesso (links, DOIs, repositórios, número de páginas) em nota de rodapé; apresentam-se informações de conteúdo (do que trata o trabalho, qual problema resolve, qual sua relevância) no corpo do texto, de maneira resumida, 3 linhas, por exemplo. Lembre-se de que o memorial não é um currículo.
Outros problemas recorrentes
Os comentários restantes ilustram um tipo de falha que se repete com frequência nesse gênero textual.
5. Informações não verificadas sobre colaboradores
Trecho do memorial: “Em 1983, o Professor […] prosseguiu para o doutorado na Universidade de […], onde obteve o título de doutor em […]. Sua tese, intitulada […], está disponível no acervo digital de produções científicas da Universidade […], orientada pelos Professores Doutores […], pesquisadores da Universidade de Warwick — com a co-orientação, não oficial, do Professor Doutor […], da Universidade de […].”
Comentário – “Essas informações somente devem vigorar se, de fato, este pesquisador tiver contribuído para a pesquisa do autor.”
O problema: o termo “não oficial” já revela, em si, alerta em um documento de prova acadêmica, pois registra algo que não pode ser comprovado formalmente. Solicitei, nessa perspectiva, como Revisor, condicionar a oração a uma verificação real: a contribuição existiu de fato? O memorial é um gênero um pouco mais informal, sim. Mas esse tipo de informação não deve vigorar dessa maneira. Talvez seja mais adequado não utilizar o termo “coorientação” mas “auxílio”.
Como resolver: deve-se questionar, em relação à informação “não oficial” ou “informal” no memorial: há alguma evidência independente (e-mail, agradecimento em artigo, menção em outra publicação) que sustente a afirmação? Se não houver, sugiro remover.
6. Referências institucionais incompletas
Trecho do memorial: “O Professor […] é amplamente reconhecido como um Pesquisador promissor na área da matemática, como demonstrado na carta de recomendação do Prof. Dr. […], endereçada ao Chefe do Departamento de Matemática em 1981 (conforme Anexo […]).”
Comentário – “Especifique. Exemplo: ‘Ao Chefe do Departamento de Matemática da…'”
O problema: a frase nomeia um cargo (“Chefe do Departamento de Matemática”), mas não nomeia a instituição a que esse departamento pertence. Como o memorial trata de várias universidades ao longo do texto (USP, Unicamp, Warwick), a ausência do nome da instituição obriga o leitor a inferir por contexto, o que é um risco desnecessário em um documento em que se avaliam a precisão de suas referências.
Como resolver: sempre que um cargo institucional for citado (chefe de departamento, coordenador, diretor), é importante especificar o nome completo da instituição, mesmo que esta já tenha sido mencionada antes no texto. A repetição do nome da instituição custa poucas palavras e elimina qualquer ambiguidade.
7. Redundância e informações repetidas em pontos diferentes do texto
Trecho do memorial: “Uma característica que dificulta a obtenção de dados exatos sobre sua produção acadêmica refere-se ao fato de […] não atualizar, regularmente, seu currículo com as informações relevantes de sua biografia acadêmica.”
Comentário – “Ao final, há um parágrafo com informação similar a esta. Eu retirei daqui, e deixei lá.”
Trecho do memorial: “Em relação à formação de recursos humanos, […] orientou mais de 35 doutorandos, 12 mestrandos, e, aproximadamente, 15 Pesquisadores de pós-doutorado. Além disso, ele incentivou muitos estudantes, nos primeiros anos de suas carreiras acadêmicas.”
Comentário – “Essa informação já foi mencionada anteriormente.”
O problema: memoriais acadêmicos costumam ser escritos ao longo de várias sessões, e é comum que o autor esqueça o que já registrou em seções anteriores, especialmente números de orientandos, datas e projetos, que se repetem porque aparecem naturalmente em diferentes contextos (formação, atuação institucional, produção científica). O resultado é um texto desorganizado.
Como resolver: antes da entrega final, monte uma lista simples com todos os dados numéricos e factuais do memorial (quantidade de orientandos, de artigos, de projetos, datas de cargos) e marque em qual parágrafo cada um aparece. Além disso, encaminhe o seu memorial a um Revisor qualificado (se mencionar, por exemplo, no pedido de orçamento, que leu este texto, oferecerei um desconto). Qualquer dado repetido em mais de um lugar deve vigorar em apenas um: de preferência, onde ele tem mais relação direta com o argumento construído.
8. Generalizações vagas
Trecho do memorial: “No entanto, como é característico de um Pesquisador, são as atividades acadêmicas e científicas que parecem trazer maior satisfação à sua trajetória. Em 2006, ele fundou o “Congresso Latino-Americano de […] ” e, poucos anos depois, a “Escola e Workshop em […] “. Ambos eventos de renome internacional, já consolidados no calendário de eventos de matemática na área de Teoria […], atraindo especialistas, Pesquisadores de prestígio e editores de revistas científicas de vários países. Devido à semelhança de temas, públicos e locais, esses eventos foram unificados há alguns anos. Até o momento, realizaram-se cerca de 15 edições, duas delas no Departamento de Matemática da Universidade Estadual de […], incluindo a mais recente em 2023.”
Comentário – “pesquisadores de prestígio” é uma afirmação de mérito esvaziada de sentido. Pode soar bem, mas não convence uma banca, porque não é verificável. É o tipo de generalização que qualquer memorial poderia conter, sobre qualquer evento, sem acrescentar prova alguma sobre o mérito específico do evento em questão.
Como resolver: substitua adjetivos genéricos (“renomado”, “de destaque”, “de prestígio”) por, no mínimo, dois exemplos concretos. Apresentar o nome e titulação de pesquisadores que participaram do evento faz muito mais sentido, portanto, do que omiti-los com termos genéricos.
9. Falta de detalhamento em projetos citados apenas pelo nome
Trecho do memorial: “[…] foi bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq por mais de 30 anos consecutivos. Foi também coordenador de vários projetos, inclusive dois projetos […] do CNPq, ambos contando com a participação de vários Professores do […], o que demonstra o apreço e a ligação especial que ele mantém com essa instituição. Além disso, ele lidera, há mais de 15 anos, um abrangente projeto científico apoiado pela FAPESP, o Projeto Temático sobre […].”
Comentário – “Talvez seja o caso de especificar em 2 linhas o projeto.”
O problema: o projeto de pesquisa é citado apenas pelo nome; sem que o interlocutor saiba qual pergunta científica ele investiga, qual sua relevância… Um “Projeto Temático” da FAPESP é, tipicamente, um financiamento competitivo, o que só reforça a oportunidade de detalhar seu conteúdo.
Como resolver: todo projeto de pesquisa citado em memorial merece o mesmo tratamento: nome completo, financiador, duração e é possível contextualizá-lo, nesse sentido, por meio de resumo (de duas linhas) sobre o problema científico investigado.
10. Termo técnico
Trecho do memorial: “Esse projeto, com mais de 30 anos de desenvolvimento, inclui várias contribuições significativas. Baseado na dinâmica de elementos relativos a um semigrupo agindo em variedades flag, ele associou um conjunto controlável natural que pode ser estudado como um subconjunto de uma célula de […] de uma variedade flag. Nesse contexto, ele introduziu o conceito de tipo flag de um semigrupo, o que resultou em diversos critérios para controlabilidade de sistemas de controle e para a transitividade de semigrupos. Conjuntos controláveis e suas aplicações constituem o tema central do trabalho científico de […].”
Comentário – “Talvez seja o caso de explicar, em nota de rodapé, com citação do próprio Professor, esse termo.”
O problema: bancas de concurso de Professor Titular incluem avaliadores de áreas próximas, mas não necessariamente especialistas na subárea exata do candidato. Um termo técnico como “variedade flag” (familiar a quem trabalha com grupos de Lie, mas obscuro para a maioria dos matemáticos) pode fazer com que parte da banca leia o parágrafo mais central do memorial (o que descreve a própria linha de pesquisa) sem compreendê-lo plenamente.
Como resolver: para cada termo técnico que não é de conhecimento geral, inclua uma nota de rodapé com uma explicação curta e acessível (nas palavras do próprio autor, já que ninguém explica o próprio trabalho com mais precisão e autoridade do que quem o desenvolveu).
Checklist para memoriais acadêmicos
Os comentários analisados podem ser resumidos em uma lista útil tanto para quem escreve quanto para quem revisa um memorial acadêmico:
- Terminologia: os adjetivos e substantivos usados cobrem o conteúdo do parágrafo, ou são mais genéricos do que deveriam?
- Completude de dados: todas as datas, áreas de titulação e nomes completos (com título acadêmico) estão preenchidos sem “ano e ano” ou “[especificar]” esquecidos?
- Foco no autor: cada menção a terceiros (orientadores, colegas, coautores) contribui para comprovar algo sobre a trajetória do autor (ou é uma digressão)?
- Densidade: cada trabalho, tese ou projeto citado especifica a temática investigada, e não apenas dados bibliográficos?
- Links e metadados: URLs, número de páginas e locais de acervo estão em notas de rodapé, fora do corpo do texto?
- Referências institucionais: cargos citados (chefe de departamento, coordenador) são acompanhados do nome completo da instituição?
- Redundância: algum dado numérico vigora em mais de um parágrafo do memorial?
- Precisão: adjetivos de mérito (“prestigiado”, “renomado”) estão acompanhados de pelo menos dois exemplos nominais?
- Acessibilidade: termos de jargão muito específico têm explicação, de preferência com as próprias palavras do autor?
Questionamentos frequentes sobre revisão de memorial acadêmico
O que é um memorial acadêmico? É um documento narrativo, exigido em concursos de Professor Titular e processos de livre-docência no Brasil, no qual o candidato descreve e comprova sua trajetória de ensino, pesquisa, orientação e atuação institucional ao longo da carreira.
Qual a diferença entre um memorial acadêmico e o Currículo Lattes? No Currículo Lattes, listam-se informações de forma estruturada e cronológica; no memorial acadêmico, exige-se uma narrativa argumentativa, em que se contextualizam os fatos mais relevantes da trajetória, com enfoque na qualidade da argumentação e não na topicalização de itens.
Quanto tempo antes do prazo final devo revisar o memorial? Como os problemas mais comuns (lacunas de dados, redundância entre seções, falta de densidade científica) aparecem somente com clareza em uma leitura integral do documento, o ideal é reservar tempo para, pelo menos, duas rodadas de revisão completas, com intervalo, portanto, de alguns dias entre elas, antes do prazo de entrega.
Atenção
Todo texto, seja escrito por uma pessoa, seja formulado ou lapidado com o auxílio da Inteligência Artificial (IA), deve ser revisado por um profissional. A Revisão preserva a autoria, especialmente porque pressupõe a interação entre quem escreve e quem revisa, sem substituir as escolhas e responsabilidades do autor. Revisar, nesse sentido, constitui também uma forma de qualificar o texto e fortalecer o discurso do autor.
