Na madrugada de 20 de junho de 2026, milhões de brasileiros em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná foram despertados pelo som de uma sirene de seus smartphones. A ferramenta utilizada foi o sistema Cell Broadcast (Defesa Civil Alerta), projetado para emitir avisos sonoros inevitáveis (mesmo com o aparelho no silencioso) diante de catástrofes iminentes, como rompimento de barragens ou tempestades severas.

Em vez de instruções de evacuação, a tela exibia a enigmática mensagem: “Defesa Civil:misantropi4”. O Governo Federal e os órgãos estaduais rapidamente esclareceram que o disparo foi fruto de um ataque hacker, utilizando credenciais clonadas, o que levou à abertura de um inquérito pela Polícia Federal.

A escolha deliberada do termo “misantropia” (grafado com o número “4” no lugar da última letra) transformou um incidente de segurança cibernética em uma provocação filosófica e niilista direcionada a cerca de 30 milhões de cidadãos. E, por essa razão, decidi abordar o termo neste post para vocês.

As colagens presentes em Misantropia.jpg e image_bfde21.png ilustram com precisão como grandes autores utilizaram a figura do misantropo para escancarar as hipocrisias e contradições do tecido social. A literatura clássica e a brasileira tratam o isolamento e o desdém pelo gênero humano sob prismas psicológicos e satíricos profundos:

1. O Ódio Absoluto: William Shakespeare (Timão de Atenas, 1623)

O trecho destacado na imagem ilustra o ápice da decepção humana. Timão, após ser generoso e ver sua fortuna dissipada por falsos amigos que o abandonam na miséria, isola-se em uma caverna. Sua misantropia é ativa e furiosa: ao ser questionado por Alcibíades sobre seu ódio ao homem, ele decreta: “Sou Misantropo e odeio a humanidade”. Shakespeare usa a figura para mostrar como a ganância social é capaz de corromper o espírito mais nobre, transformando caridade em rancor incurável.

2. A Ironia Crítica: Machado de Assis (A Igreja do Diabo, 1884)

Na literatura machadiana, a misantropia ganha contornos de fina ironia psicológica. No diálogo citado na imagem, o Diabo subverte o próprio conceito de altruísmo ao afirmar que “a misantropia pode tomar aspecto de caridade”. Para o bruxo do Cosme Velho, afastar-se do convívio ou dar liberdade aos outros para viverem suas vidas nada mais é do que uma forma refinada de ignorar a existência alheia. A sociabilidade humana, na visão satírica machadiana, é repleta de interesses escusos.

3. O Isolamento Melancólico: Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma, 1915)

Diferente do ódio colérico de Timão, a misantropia do Major Quaresma descrita por Lima Barreto nasce do desajuste social e do idealismo incompreendido. O trecho aponta seu “isolamento monacal”, onde vizinhos o julgavam “esquisito e misantropo”. Quaresma não odeia as pessoas; ele ama tanto um Brasil utópico e puro que a mediocridade da realidade ao seu redor o empurra para a reclusão e para os livros, evidenciando como a sociedade frequentemente marginaliza quem pensa de forma original.

O alerta invasivo da Defesa Civil forçou milhões de pessoas a buscarem o significado de uma palavra esquecida. Ao fazer isso, o incidente cibernético ironicamente acabou por conectar a população moderna aos mesmos dilemas existenciais e incômodos que ecoam nas páginas de Shakespeare, Machado e Lima Barreto.

Assista a este vídeo para entender mais detalhes sobre a invasão do sistema de alertas e a repercussão da mensagem: Detalhes do falso alerta da Defesa Civil. Este vídeo traz a cobertura jornalística sobre o pânico gerado na madrugada do envio e explica como o sistema Cell Broadcast foi comprometido.

Você sabe o que é comensalidade?

Você sabe o que é comensalidade?

Acho a maneira que os tailandeses lidam com a comida muito interessante. Eu já estive em vários países por este mundo, mas nunca me senti tão pleno em relação à alimentação como na Tailândia. E os países ao redor não me trouxeram a mesma sensação.

Dificilmente, no Brasil ou na grande maioria dos países do mundo, é possível passar meses comendo fora de casa todos os dias, fazendo, literalmente, todas as refeições fora, sem, simplesmente, ter de lavar louças, ir ao mercado ou cozinhar.

E não me refiro, apenas, aos milhares de mercados de comida de rua que eles cultuam, que, inclusive, são comuns em outros países, incluindo os da América do Sul, com destaque para o Brasil.

Eu me refiro a uma estrutura INTEIRA, a um modus operandi de existência criativa (sem aniquilar a nossa pulsilanimidade), em que comer constitui uma forma de participação coletiva e ao mesmo tempo particular. E isso se estende, de maneira bem planejada e prática, para estabelecimentos comerciais, de shoppings a supermercados, seja por meio de Foodcurts ou dos eateries tão comuns no mercado Lotus.

Há shoppings em que mais de 3 andares são destinados, apenas, à alimentação. E este não é o caso de uma simples praça de alimentação, mas de uma área chamada Foodcurt, como um restaurante comunitário, em que diversos pequenos estabelecimentos atuam (alguns gourmetizados). Mas eu demorei alguns anos para entender, porque é bem complexo para quem é ocidental.

E, se você não estiver satisfeito, há uma infinidade de 7/11 (e até restaurantes), e delivery, funcionando 24 horas por dia em todas as cidades, mesmo no interior do país. Isso me traz uma sensação de imensidão tão profunda em relação à alimentação que tampouco cabe neste texto. É uma das principais razões de eu sempre voltar à Tailândia (para comer a comida deliciosa deles, e para reviver essa experiência que não é possível em outro lugar).

E não trato, apenas, de uma questão financeira, mas de haver um esforço e capricho genuínos para o preparo da comida e dos próprios ambientes onde esta circula, de maneira extremamente criativa, em qualquer dia da semana, durante todo o ano, independentemente de ser uma data comemorativa.

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