Andréas lubitz: Germanwings

Morro de medo de viajar de avião. No início, sentia-me um “super-homem” nas alturas, mas, hoje, um pouco mais velho, valorizo muito mais a minha vida rsrs. Uma das últimas viagens que fiz me marcou bastante, peguei uma turbulência que durou mais de 30 minutos. Desde aquele voo, voltando do Panamá, temo demais viajar.

Cada vez que vejo uma notícia de catástrofe aérea, imagino que a minha próxima viagem será o meu fim rsrs. Quando o avião decola ou pousa, a primeira coisa que penso é naquela famosa afirmação de que os aviões, praticamente, só caem nesses momentos do voo.

O maior problema hoje, pelo que tenho visto, continua, como as estatísticas apontam, não sendo problemas técnicos em si nos aviões. Embora eu não acredite muito rsrs, os aviões são meios de transportes seguros. Nós não podemos, no entanto, prever as falhas humanas…

Grande sertão: veredas traz, entre outros assuntos, uma discussão muito reveladora sobre essa questão, o medo do desconhecido. Quem leu a obra deve se lembrar dos dizeres: “viver é muito perigoso”. A noção de risco coloca-nos à prova, hoje, constantemente. A sociedade contemporânea vive assombrada pelo desconhecido, e não é por acaso que há tantas investimentos em seguros.

Estamos tão especializados em nossos próprios estilos de vida que, por algum momento, é inculcada em nosso consciente, seja em virtude do discurso da fé, das relações sociais, bem como do discurso de consumo, a ideia de que nós precisamos nos “armar” contra os diversos riscos que nos circunda, afinal, ninguém “vive para sempre”, “é preciso investir no futuro, cuidar de nós mesmos e de quem nós amamos”.

De qualquer maneira, e do jeito que as coisas andam, eu acredito, de fato, que nós precisamos nos proteger, especialmente de algumas pessoas na sociedade. Sei que existem pessoas maravilhosas pelo mundo, e já encontrei diversas dessas pessoas, algumas, inclusive, já me ajudaram bastante.

Mas eu já encontrei cada tipo de gente que um pessimista constataria que viver é um verdadeiro martírio. Por essa razão, sempre fico com pé atrás com as pessoas. E faço essa afirmação, inclusive, porque as pessoas mudam e são muitos vulneráveis aos mais diversos estímulos.

Fiquei muito chocado quando soube que o piloto da Germanwings, Andreas Lubitz, decidiu pelo fim da sua própria vida bem como dos tripulantes do voo o qual ele era, profissionalmente, também, um dos responsáveis. Muitos disseram que ele cometeu suicídio, mas não acredito que seja possível cometer suicídio e decidir pela morte de mais de 170 pessoas.

Sei que a natureza do ser humano é muito diversa e que há todo tipo de gente por ai, estejam elas em um padrão social aceitável ou não. Aqueles que têm problemas e não estão à margem da sociedade, em um sanatório, ou em alguma instituição de recuperação psicológica, têm, ou deveria acreditar que têm, no entanto, responsabildiade social pelos outros, seja em relação ao que se diz bem como ao que se faz.

Imagine o sofrimento dos tripulantes desse voo. Fico me imaginando no lugar deles. E o pior, imagine o momento em que eles souberam, de fato, que iriam morrer? (Há casos de catástrofes aéreas, em que as pessoas morrem antes mesmo do “momento fatal” e não chegam a sofrer, de fato, por mais do que segundos).

(Confesso que não tenho muito maturidade para lidar com a morte e acredito, com um coração bobo e esperançoso de menino, que a morte está bem longe de mim, especialmente nesses casos repentinos.)

Vivemos o século da subjetividade. O individualismo nunca se opôs tanto à coletividade. As ideias de Freud sobre a psiquê humana anunciaram o homem contemporâneo e o lugar privilegiado de seu ego.

Os direitos sociais se opõem aos direitos coletivos e o indivíduo torna-se produto comercializado de si mesmo. Não é por acaso que Andreás afirmava que “ainda seria conhecido em todo o mundo”, afinal, a sua subjetividade adquiria status universal: “egofundamentalismo”.

Ilha de San Andrés

Em alta temporada, San Andrés é uma opção cara. Talvez, em baixa temporada, os preços estejam mais em conta. Alimentação, por exemplo, tem custo elevado na Ilha. Se você prefere cozinhar para economizar, os preços ainda serão elevados.Verduras, por exemplo, são caras. Os passeios variam entre 15 e 500 reais por pessoa em alta temporada. Os mais “badalados” custam cerca de 100 reais por pessoa.

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DSC030802)Aluguei um apartamento comum que custou 1950 reais para três pessoas (8 dias, apenas). A média de hotéis para um quarto triplo custa, no mínimo, 300 reais por pessoa com café da manhã. Vale a pena procurar,
no centro da cidade, aluguel de apartamentos e hospedagens independentes. Booking e outros sites têm preços muito elevados.

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Sobre o azul do mar, vale a pena conhecer a Ilha. Os tons de azul são lindos e você não precisa pagar uma diária caríssima de 3 mil reais, como em Punta Cana, para conhecer, de fato, aquele esperado mar caribenho. As faixas do mar da Ilha são de livre acesso.

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Há uma peatonal no centro da cidade muito bacana. Lá você encontrará de tudo um pouco. Pesquisem preços, especialmente, de perfumes. No último dia de minha viagem, encontrei uma loja de calçados que estava em liquidação. Qualquer tênis na loja custava 50 COC (cerca de 70 reais). Comprei um tênis da Nike com chip que custava em outra loja cerca de 350 COC.

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Recomendo a todos o passeio pela Ilha de carrinho de golf. A ilha tem menos de 30 km. Reserve um dia da viagem para fazer o passeio no carrinho de golf. O aluguel custa de 80 a 150 COC por dia (o equivalente a 120 a 180 reais). Cada carrinho comporta entre 4 e 5 pessoas. No caminho, sugiro uma parada na praia de São Luís, onde localiza-se uma pequena ilha com um barco velho.

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 Evitem hospedagens perto do aeroporto, o barulho dos aviões incomoda. Verifiquem no mapa da ilha a localização de sua hospedagem.

Achei ruim o gosto do arroz de coco deles. Peçam para trocar o arroz por mais salada.

Segundo a telefônica Movistar, estrangeiros não podem registrar um número de telefone. Então, não adianta comprar um chip na Ilha.

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Em quase todos os passeios, será essencial uma sapatilha para entrar na água. Alguns locais têm muitas pedras e fica difícil caminhar. Comprei em Bogotá a sapatilha (30 COC), ela custava três vezes mais do que na Ilha (15 COC). Outra dica, não recomendo Bogotá, a cidade é ruim, não há nada de interessante por lá.

Há uma espécie de Subway lá (tem subway também), próximo da praia, que tem um molho MUITO GOSTOSO. O sanduíche deles é muito bom! Peça um combo. O valor é de 15 COC.

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Pergunte, nas lojas, se há desconto no caso de pagamento em dinheiro (en efectivo). Em algumas lojas, há desconto.

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Não vale a pena ficar mais de 1 semana na Ilha. San Andrés é um local pequeno e não há tantas atrações.

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Procurem por mercados distantes do centro da cidade, os preços são mais baratos.

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O cachorro quente deles é horrível :S. Tem geleia de abacaxi em cima. Quem quiser água quente, sugiro o Hotel Noble House, localizado no centro da cidade. A maioria dos outros hotéis e apartamentos não disponibiliza água quente.

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Boa viagem a todos!

Cidadania do jeito: perspectiva discursiva e interacional

Cidadania do jeito: perspectiva discursiva e interacional

Há três situações representativas da realidade brasileira que serão mencionadas neste post. Por meio delas, pretendo lançar questionamentos a respeito das interações na constituição da(s) cidadania(s) do povo brasileiro, em especial, na(s) cidadania(s) do(s) brasiliense(s), em relação ao discurso de cidadania em si, bem como às interações em contextos urbanos.

As experiências a seguir referem-se a observações de interações, no tocante à cidadania, e fundamentaram-se nas minhas reflexões em busca de respostas para o termo cidadania no Brasil.

Como esta reflexão foi elaborada no período em que o Brasil foi elencado para sediar dois grandes eventos interacionais, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, trago para este texto discussão sobre a apresentação do Brasil no encerramento dos Jogos Olímpicos da Inglaterra[1]. A segunda situação é relativa a momento de interação em fila de um supermercado no centro de Brasília. Por fim, apresento momento de interação vivenciado por mim em transportes públicos na Capital Federal.

A apresentação do Brasil no encerramento dos Jogos Olímpicos, na Inglaterra, iniciou-se com a seguinte encenação: as luzes do estágio apagaram-se e, de repente, havia holofote de luz em um dos atores sociais muito representativo do Brasil, um gari, negro, em seu uniforme alaranjado. O gari invadiu o estádio, descumprindo a norma instituída e, após ser repreendido por um dos seguranças figurinistas, negociou, por meio de sua malandragem, o fundamento de sua própria identidade, um aspecto de sua cidadania internacionalmente conhecida: “a cidadania do jeito”. Nesse sentido, a rigidez do sistema legislativo britânico, fundamentada em outros parâmetros de cidadania, não seria aplicada àquele cidadão brasileiro, pois, como anunciava o evento, a Inglaterra não seria mais o país-sede dos jogos. Por essa razão, a regra instituída fundamentar-se-ia na malandragem.

A cordialidade do brasileiro transbordava na interação com o outro, estrangeiro, que pareceria estar bastante engajado na interação com aquele, demonstrando, inclusive, que possuía, após aparente mal-entendido, também, “samba no pé”. A interação Brasil e Inglaterra naquele momento transformou-se em um rito de passagem em que o encerramento da participação deste país, por meio de sua própria encenação cultural, enquanto país-sede dos Jogos Olímpicos, apresentava ao mundo aspectos culturais do novo país-sede: o Brasil. O engajamento na interação revelou laços entre os países, fortalecidos pelo próprio fundamento dos jogos no mundo globalizado.

Essa apresentação é bastante reveladora sobre a cidadania no Brasil. O paraíso das transgressões iniciou a sua apresentação em um cenário de beleza natural, com o bom selvagem ao fundo, em que recaía apenas sobre o gari — cidadão incompleto[2] — a malandragem. O índio foi apresentado, naquele momento, como não cidadão, apresentado como ser sobrenatural, lendário. O segundo momento do espetáculo revelou-se pela passagem de modelos e artistas famosos, os “cidadãos exemplares”.

De acordo com Holston (2013), em sua obra “Cidadania Insurgente”, sobre disjunções da democracia e da modernidade no Brasil, ao citar a variação do termo cidadania entre os Estados-nações ao longo do tempo, em sua fundação nacional, afirma que a França pode ser descrita como restritivamente igualitária, os Estados Unidos, como restritivamente igualitários e o Brasil, como includentemente desigual. O autor não tem o intuito, no entanto, com o seu estudo comparativo, de interpretar o Brasil como um país exótico ou patológico, mas tornar evidente, a partir da comparação de cada caso, as suas particularidades. Inspirados pela Revolução Francesa e Inglesa, os brasileiros também engajaram-se, segundo ele, nos modelos dos Estados-nações ocidentais. Mas o Brasil, nessa perspectiva, a partir de políticas de inclusão de sua diversidade, formulou cidadania desigual, centrada na concessão de privilégios. É o que ele define como cidadania diferenciada, expressa na máxima brasileira: “para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. Nesse sentido, segundo Holston (2013):

“Essa formulação de cidadania usa diferenças sociais que não são as bases da incorporação nacional sobretudo diferenças de educação, propriedade, raça, gênero e ocupação — para proporcionar tratamentos diferentes para categorias diferentes de cidadãos. Por isso gera uma gradação de direitos entre eles em que a maioria dos direitos está disponível apenas para tipos específicos de cidadãos e é exercida como privilégio de categorias sociais específicas. […] Esse esquema de cidadania é, em resumo, um mecanismo de distribuição de desigualdade. As cidadanias não criam diretamente as maiorias das diferenças que usam. Elas são, antes, os meios fundamentais pelos quais os Estados-nações reconhecem e administram algumas diferenças como sistematicamente proeminentes ao legitimá-las ou igualá-las para propósitos diversos. Em geral, um regime de cidadania legitima e iguala diferenças ao mesmo tempo, e suas combinações específicas lhe conferem um caráter histórico. As formulações brasileiras igualam as diferenças sociais no que se refere à afiliação nacional, porém legaliza algumas dessas diferenças como bases para distribuir de maneira diferenciada direitos e privilégios entre os cidadãos.“

Segundo Holston, muitas categorias de cidadania no Brasil não representam a exclusão dos brasileiros da cidadania, o que ocorre, por outro lado, é a discriminação em função de alguns status de cidadania diferenciados. Isso é facilmente percebido na apresentação brasileira na Inglaterra, em que ostatus de cidadania do gari é desigual, pois a ele recai a culpabilização pela transgressão, embora ela anuncie em si toda a apresentação dos outros atores sociais, posteriormente. Neste “paraíso das transgressões”, criado em um imaginário mitificado pelo europeu, em um período em que se acreditava que havia monstros marinhos nos oceanos e que não havia no mundo terras além do horizonte mar, cujas interações seriam altamente engajadas e passionais, constituir-se-ia uma nação que na visão de Schwarz está algures, além de seu próprio território, seja para um modelo norte-americano ou europeu, o que importa é o não lugar, o desvinculamento de suas raízes, de sua história, o não pensar em sua cultura, “dar um jeito” e ignorar o presente, deixando ao futuro as esperanças da realização de uma forte economia, apesar de esta já estar estabelecida entre as dez potências econômicas mundiais. Restaria ao gari “dar um jeito”, renascer, o embranquecimento, a fuga, o fugere brasilis, o tornar-se artista, a redenção a um messias ou o mito do doutor: medicina, advocacia e engenharia, ou o que lhe garantisse um status que o diferiria dos demais. Nesse sentido, vale ressaltar que as negociações no Brasil, bem como os discursos, em relação ao sentido de cidadania, perpetuam relações assimétricas.

A segunda situação é relativa ao momento de interação em uma fila de um mercado na Asa Norte, bairro de classe média e classe média alta, em Brasília. Presenciei uma mulher interagindo de maneira bastante representativa do brasileiro em relação à sua própria atribuição de sentido do termo cidadania, ou melhor, à sua criatividade para (re)significar a cidadania à brasileira: “a cidadania do jeito”. Ela aguardava, em minha frente, ansiosamente, para ser atendida. Demonstrava estar ansiosa, especialmente, em função de suspiros profundos e movimentação constante com o corpo. Cansou-se de esperar e resolveu “dar um jeito” de ser atendida mais rapidamente, já que ela não atendia os requisitos para a fila preferencial. Então, ela direcionou-se ao caixa ao lado, por talvez acreditar que o atendimento ali não seria tão moroso. No entanto, após alguns minutos, a estratégia que ela utilizou não foi eficaz, e ela resolveu voltar para a fila em que se encontrava, anteriormente. Voltou para a fila, tacitamente, como costumam interagir os atores sociais da “cidadania do jeito”.

A atitude da senhora nessa situação refere-se à metalinguagem do “jeito”. Se na tentativa de “dar um jeito” para algum problema não é eficaz, “dá-se um novo jeito” como se ambos convergissem desesperadamente para a resolução do problema: “custe o que custar”, afinal, “brasileiro não desiste nunca”. As filas no Brasil são um grande problema. A disfunção da burocracia no Brasil acarretou um sistema de atendimento moroso. Para “dar um jeito”, o brasileiro optou pela cidadania diferenciada: filas diferenciadas para clientes diferenciados, alguns outros, “optaram por dar um jeitinho”.

Esse momento de interação é interessante de ser analisado, pois revela um caráter de nossa cidadania que parece tender a garantias de direitos “infinitos”, além disso, criou-se uma regra tácita nas interações, fundamentada na esperteza, capaz de diferenciar mais ainda esses atores sociais. Não é incomum, nesse sentido, ver pessoas com quantidade superior ao permitido nessas filas, por acreditarem estarem com “só um pouquinho a mais”. A essa concessão infinita de cidadanias diferenciadas não percebeu-se que nesta nação o diferente também pode, antagonicamente, apresentar-se desigualmente superior, por exemplo, por sua melhor condição financeira, ou pode revelar-se desigual para impedirem direitos dos outros, como é o caso do discurso de muitos grupos religiosos.

A terceira situação refere-se a momento de interação em meios de transportes públicos em Brasília. Há alguns meses, um motorista impediu-me de entrar em uma das chamadas “zebrinhas”. O motorista alegava que não possuía troco para a nota de dez reais que havia recebido. OEntrei no ônibus e disse que isso não era um problema, pois ele poderia receber o seu troco posteriormente, quando ele fosse descer, insistiu e disse que não sairia do microônibus devido à regra pré-estabelecida indevidamente pelo motorista. O motorista, no entanto, em tom agressivo, não liberou a catraca de passagem dizendo que havia um outro microônibus atrás em direção ao mesmo lugar de destino daquele: Asa Norte, Asa Sul e Aeroporto. Para não contrariar o motorista, entrei no outro microônibus, que também não possuía troco.

Por meio desses exemplos, é fácil compreender a problemática da cidadania no Brasil. Por essa razão sempre tive interesse em refletir sobre o conceito de cidadania dos brasileiros e suas performances. No terceiro caso, é possível compreender a pessoalidade do brasileiro em relação ao seu statuspúblico. Esse é o mesmo caminho que desvirtua o serviço público no Brasil. O problema dessa “pessoalidade” está muito relacionado à política brasileira e também ao exercício da cidadania. Sobre a política, nem a burocracia, como forma de administração pública, “deu um Jeito” na pessoalidade de políticos e funcionários públicos, que estabelecem um uno entre eles e a função pública que executam, ou seja, muitas vezes, eles não exercem função pública, exercem funções para si mesmos e legitimam esse comportamento porque as regras de convivência no Brasil permitem que algumas outras normas não sejam cumpridas para que não se seja antipático e para que haja identificação momentânea entre cada um dos atores sociais e as barreiras socioeconômicas, ainda que temporariamente, sejam desfeitas. Sobre o exercício da cidadania, especialmente em casos que haja identificação entre os atores sociais, o processo de interação faz-se muito próximo e pessoal. Nesse processo, caso haja discordância, apela-se necessariamente para outro ponto de concordância: “Ele é corno, mas é meu amigo, é zé-ruela mas é meu amigo, ele é viado, mas é meu amigo, ele pode ter defeito, mas é meu amigo).”

Se não se encontra essa harmonia, de acordo com Lívia Barbosa (sobre o jeitinho brasileiro), apela-se para outra estratégia: “Você sabe com quem está falando?”. Mas é preciso ter “cacife” para que se diga isso. Muitas vezes, esse excesso de intimidade impede o exercício da cidadania para que se seja cordial. A busca pela malandragem é outro aspecto importante nesse universo subjetivo. Opta-se pela sorte, pela aleatoriedade, pelo “jeito”, porque “pensar enlouquece”, “estudar para quê? estude para passar em um concurso público, pelo menos”. Embora muitos não concordem com essas atitudes pessoais, caso eles não possuam poder, omitem-se passivamente ou são cúmplices da transgressão, o que justifica o comportamento social. Embora haja traços no comportamento humano que podem ser encontrados em qualquer cultura, a peculiaridade do jeitinho brasileiro encontra-se no comportamento individual em excesso, justificado em um contexto no qual as várias vozes têm ”valor”, sejam elas vozes de pessoas preconceituosas, bandidos, corruptos, religiosos, pobres, ricos, crianças, adolescentes, adultos, pessoas em situação de rua…  é o “O samba do crioulo doido”.

Vários outros poderiam ser elencadas para ilustrar as performances de cidadania no Brasil, especialmente em Brasília. São recorrentes reclamações em filas, nos transportes públicos, em paradas de ônibus, no trânsito, na rua, em instituições públicas ou privadas das performances dos cidadãos brasileiros. Essas situações não são discutidas aqui, no entanto, com o fundamento de patologizar a cultura brasileira. Atribui-se no entanto, à falta de investimento em educação de qualidade por parte do Estado e à “cultura do jeito”, seja ele praticado por ricos ou pobres, o seu aspecto negativo em si, grandes barreiras à democracia e à cidadania no Brasil. E isso não deve ser interpretado como uma busca desesperada por um status de cidadania estrangeiro, ele pode ser desenvolvido ao “modo brasileiro”, mas isso não significa a cidadania do caos, do jeito tampouco a gênese da representatividade brasileira na natureza ou na cultura indígena, como propunha a literatura romântica, inclusive porque, as sociedades indígenas, embora não estruturem-se conforme os modelos capitalistas, são baseadas em regras sociais que são cumpridas e estabelecidas pelos seu povo.

[1] Embora o evento tenha sido basicamente “uma encenação”, com figurinistas, atores e cenários fictícios, ideologicamente essa encenação, na verdade, apresentou-se verossímil em relação às nossas interações cotidianas, face a face.

[2][2] Esta definição fundamentou-se na concepção de Carvalho (20), sobre a cidadania no Brasil.

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#Cidadania do jeito: perspectiva discursiva e interacional

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