Reescrita de Textos

Reescrita de Textos

Partindo da concepção de que a Revisão é um processo recursivo (Hayes & Flower, 1980; Collins & Gentner, 1980; Hinckel, 1991; Serafini, 1992; White & Arndt, 1995), mostrando a ideia do texto em progressão, observa-se a reescrita como oriunda dessa configuração; isto é, a reescrita nasce a partir de revisões efetuadas no texto. Segundo Gehrke (1993), a Reescrita de Textos é vista como um processo presente na revisão, como um produto que dá continuação a esse processo. Na verdade, é um produto que dá origem a um novo tipo de processo, permitindo uma nova fase na construção do texto.
De acordo com Gehrke (Op. cit.), a reescrita, muitas vezes, se confunde com a revisão, por estar presente no processo desta. Nesse momento, o autor está produzindo, ao mesmo tempo, a leitura de seu próprio texto, ou seja, está analisando, refletindo e recriando sobre sua construção 1.
Além de aprimorar a leitura, a reescrita auxilia a desenvolver e melhorar a escrita, segundo Chenoweth (1987), ajudando o aluno-escritor a esclarecer melhor seus objetivos e razões para a produção de textos. Nessa perspectiva, esse autor considera que reescrever seja um processo de descoberta da escrita pelo próprio autor, que passa a enfocá-la como forma de trabalho, auxiliando o desenvolvimento do processo de escrever do aluno.
Os estudos de Seguy & Tauveron (1991), sobre o discurso avaliativo de alunos, tendo seus próprios textos e o texto de um colega como análise, demonstram que as observações que levam à reescrita são, na sua maioria, relacionadas a aspectos formais, a correções gramaticais. Em levantamento sobre os comentários dos alunos, esses estudiosos evidenciaram que os termos utilizados para designar as operações de reescritura eram: “trocar, corrigir, apagar, organizar, retificar, modificar, continuar, juntar, ampliar, ordenar, desenvolver, melhorar, aumentar e precisar” (p. 134). Nota-se que esses termos refletem a visão de revisão e reescrita dos alunos envolvidos na pesquisa, sendo que a maioria diz respeito a reestruturações formais, a correções ortográficas.

MENEGASSI, Renilson José. Da revisão a reescrita: operações linguísticas sugeridas e atendidas na construção do texto. Mimesis, Bauru, v. 22, n. 1, p. 49-68, 2001.

Disponível em: http://caringtext.com.br/files/da-revisao-a-reescrita-operacoes-linguisticas-sugeridas-e-atendidas-na-construcao-do-texto.pdf

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Discurso direto e indireto

“Discurso direto e indireto

Outro expediente linguístico para mostrar diferentes vozes bem demarcadas no texto são o discurso direto e o indireto. Num texto, as personagens falam, conversam entre si, expõem suas ideias. Quando o narrador conta o que elas disseram, insere na narrativa uma fala que não é de sua autoria, cita o discurso alheio. O discurso direto e o indireto são procedimentos de reprodução do discurso das personagens.

Observe o texto que segue, extraído do romance Ana em Veneza, de João Silvério Trevisan:

Estavam agora diante de uma bandeja de queijos variados.

— Ah, o Brasil, essa imensa ilha… — dizia o conde Basuccello, entretido em cortar um pedaço de sbrinz dos Alpes.
— De fato — aparteou Nepomuceno — estamos muito isolados na América. A língua mas também…
— Oh, não. Não me refiro a isso, que não deixa de ser verdadeiro — retrucou o conde,
acabando de mastigar. — Falo de uma dessas ilhas utópicas cuja lenda se perde na noite dos tempos. Os senhores talvez não saibam, mas o nome Brasil em geografia já existe desde o período medieval.
— Mas o Brasil só foi descoberto bem depois… Não é mesmo, Herr Nepo? — admirou-se Júlia, entretida com um delicioso queijo stracchino lombardo.
— Sim, mas antes do atual Brasil já existia na Idade Média uma ilha chamada Brasil —
asseverou Basuccello. — Bem existiam muitas ilhas míticas imaginadas pelos povos de então.

Todas representavam o paraíso terrestre, onde não haveria discórdia nem velhice nem doenças ou morte. Eram tão perfeitas que seus habitantes não precisavam sequer trabalhar para comer.

Numa dessas ilhas, imaginem, as frutas caíam do pé pontualmente às nove horas, para poupar os homens do trabalho de colhê-las.

João Silvério Trevisan. Ana em Veneza. 2. ed. São Paulo, Best Seller, (1994). p. 465-6.
Nesse texto, o narrador indica a fala das personagens, dizendo dizia o conde Basuccello, entretido em cortar um pedaço de sbrinz dos Alpes; aparteou Nepomuceno; retrucou o conde, acabando de mastigar; admirou-se Júlia, entretida com um delicioso queijo stracchino lombardo; asseverou Basuccello, e como que passa a palavra a elas, o conde Basuccello, Nepomuceno e Júlia, e deixa-as falar. O discurso direto é o modo de citação do discurso alheio em que o narrador indica o discurso do outro e, depois, reproduz literalmente a fala dele.

As marcas do discurso direto são:

a) a fala das personagens é anunciada por um verbo (no nosso exemplo, dizia, aparteou, retrucou, admirou-se, asseverou) denominado verbo de dizer (outros exemplos são responder, retorquir, replicar, acrescentar, obtemperar etc.), que pode vir antes, no meio ou depois da fala da personagem (no nosso caso, veio depois ou no meio) ou ainda estar subentendido (depois da fala de uma personagem, o simples fato de aparecer outro travessão indica que outra personagem tomou a palavra); portanto
b) a fala das personagens aparece nitidamente separada da fala do narrador por aspas ou por dois-pontos e travessão;
c) os pronomes pessoais e possessivos, os tempos verbais e as palavras que indicam tempo e espaço, como, por exemplo, pronomes demonstrativos e advérbios de lugar e de tempo, são usados tendo como referência tanto o narrador como as personagens: assim tanto o narrador como as personagens dizem eu, denominam a pessoa com quem falam tu, chamam o espaço em que cada um está aqui e em função dele organizam os demais espaços (aí, lá), marcam o tempo em que cada um fala como agora e a partir dele ordenam os outros tempos. Portanto, 

Observe agora o fragmento do conto “O inimigo”, de Rubem Fonseca, que aparece abaixo:

É segunda-feira; estou triste pois no domingo cheguei para Aspásia e recitei para ela em espanhol, “La casada infiel”; depois de ouvir sorridente o que deveria (achava eu) comovê-la até as lágrimas, ela encerrou o assunto dizendo que o meu espanhol era nojento. 

Rubem Fonseca. Contos reunidos. São Paulo, Companhia das Letras, 1994. p. 58.

Nesse caso, o narrador, para citar o que Aspásia lhe disse, usa outro procedimento: não dá a palavra à personagem, mas comunica, com suas palavras, o que ela disse. A fala de Aspásia não chega diretamente ao leitor, mas por via indireta, isto é, por meio das palavras do narrador. Por essa razão, esse expediente chama-se discurso indireto.

As principais marcas do discurso indireto são:

a) o que a personagem disse vem também introduzido por um verbo de dizer;
b) o que a personagem disse constitui uma oração subordinada substantiva objetiva direta do verbo de dizer e, portanto, é separada da fala do narrador por uma partícula introdutória, que pode ser uma conjunção como o que ou o se (Ele disse que não sabe), um advérbio (Não disse onde estará) ou um pronome interrogativo (Pergunto por que ele não veio);
c) como apenas o narrador toma a palavra, apenas ele diz eu; somente a pessoa com quem ele fala é designada por tu; só o lugar onde ele está é chamado aqui e, a partir dele, os demais espaços são organizados; apenas o tempo em que ele fala é marcado como agora e em função dele são ordenados os outros tempos.

Façamos um confronto entre a citação da mesma fala alheia em discurso direto e em discurso indireto:

Pedro disse:
— Eu estarei aqui amanhã.

No discurso direto, a personagem Pedro toma a palavra, depois da introdução feita pelo narrador, dizendo eu; aqui é o lugar em que ela está; amanhã é o dia seguinte ao dia em que ela fala.

Se passarmos essa frase para o discurso indireto ficará assim:
Pedro disse que estaria lá no dia seguinte.

No discurso indireto, eu passa a ele, porque indica não mais quem fala, mas alguém a respeito de quem o narrador diz alguma coisa; estaria é futuro do pretérito, que é um tempo que indica posterioridade em relação a um momento pretérito, indicado por disse, e não posterioridade ao momento presente em que a personagem está falando, como o faz estarei; lá é o espaço em que está a personagem — distinto do aqui em que se acha o narrador; no dia seguinte é o dia posterior ao momento pretérito em que se deu a fala da personagem.

Na passagem do discurso direto para o indireto, deve-se observar o seguinte:

a) as frases que, no discurso direto, têm a forma interrogativa, exclamativa ou imperativa convertem-se, no discurso indireto, em orações declarativas: Portanto
Ela me perguntou:
— Quem está aí?
Ela me perguntou quem estava lá.

b) as interjeições e os vocativos do discurso direto desaparecem no discurso indireto ou seu valor semântico é explicitado, isto é, traduz-se o significado que eles expressam:

O papagaio disse:

— Oh! Lá vem a raposa.

O papagaio disse admirado [explicitação do valor semântico da interjeição oh] que ao longe vinha a raposa.

c) se o discurso citado (fala da personagem) comporta um eu ou um tu que não se encontram entre as pessoas do discurso citante (fala do narrador), eles são convertidos num ele; se os pronomes demonstrativos (este, esse, aquele) e os advérbios de espaço (aqui, aí, lá) do discurso citado não corresponderem aos do discurso citante devem ajustar-se a estes: Portanto 

Pedro me disse lá em Paris:

— Aqui eu estou sentindo-me bem, pois nesta cidade tudo é bonito.
Pedro me disse em Paris que lá ele estava se sentindo bem, pois naquela cidade tudo era bonito.

Eu converte-se em ele, porque Pedro, a personagem que disse eu em discurso direto, não é a pessoa que fala no discurso citante, mas é a pessoa de quem se fala. Aqui e nesta transformamse, respectivamente, em lá e naquela, porque no discurso citado indicam o lugar em que estava Pedro, quando falou, mas, como agora o narrador está falando de outro lugar, Paris é indicado por lá, e o advérbio de espaço e o pronome demonstrativo têm de se ajustar a esse lugar.

d) se as pessoas do discurso citado, isto é, da fala da personagem, têm um correspondente no discurso citante, seu estatuto é o mesmo neste último:

Maria declarou-me:
— Eu te amo.

Maria declarou-me que me amava”.

SAVIOLI, Francisco Platão & Fiorin, José Luiz. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006

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DIFERENTES REVISORES DE TEXTOS

DIFERENTES REVISORES DE TEXTOS

É incontestável o fato de que há vários tipos de revisores de textos, bem como de serviços de revisão. O problema começa com a própria definição desses termos: o que um Revisor de Texto faz e o que é revisão de texto? Na verdade, as concepções (algumas infundadas) que norteiam o universo de Revisão surgem/surgiram com base, muitas vezes, no universo de ensino (relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa) e de jornalismo (especialmente em relação à editoração).

As reflexões do universo acadêmico para a profissão são de grande valia e se assentam em áreas da linguística textual, análise de discurso crítica, análise de discurso, sociolinguística internacional…) que podem resolver muitos mal entendidos para a área.

No entanto, apesar das contribuições da ciência (linguística) para a profissão, e de haver certo consenso em relação às intervenções de um Revisor para o texto de um autor (por exemplo, em relação à gramática, ortografia), é natural que revisores atuem de maneira diferenciada e tenham perfis diversos. Há, inclusive, revisores especializados em áreas específicas. Eu mesmo sou um deles, sou especialista em revisão de textos acadêmicos.

Neste artigo, reúno algumas reflexões e críticas sobre a atuação do Revisor de Texto, sua multiplicidade e os limites da profissão. Trabalho há muitos anos na área, e desenvolvi pesquisa acadêmica nesse ramo, no período em que cursei uma especialização em Revisão de Textos em Brasília-DF.

1. O MESSIAS, DETENTOR ABSOLUTO DA VERDADE SUPREMA

Infelizmente, ainda existe essa imagem de Revisor como alguém que salvará o texto de todos os erros, bem como o próprio cliente, inclusive, de seus problemas (até os psicológicos rsrs). E, infelizmente, vários profissionais sem formação se lançam nessa área dessa maneira, o que é um grande equívoco.

Grande parte dos mal entendidos entre Revisor e cliente ocorre porque essa imagem é manutencionada (por ambas as partes). Desconfiem daqueles que propagam noções absolutas sobre língua. É possível mensurar e quantificar alguns padrões na escrita, especialmente em relação à ortografia e regras gramaticais, mas, muitas vezes, o problema de textos está além dessas questões.

2. ALMA CARIDOSA QUE TRABALHA GRATUITAMENTE

Não conheci, ainda, esse tipo de Revisor, mas ele existe, ao menos no inconsciente de alguns clientes, que desprestigiam o Revisor e a profissão: “é só uma olhadinha”, “vou mandar o texto novamente para você”.

Além disso, há, também, aqueles que acreditam que o preço deve ser negociado a todo o custo ou que o custo do primeiro serviço acordado contemplará várias revisões, até que o cliente acredite que o texto está “perfeito”. Outro dia, recebi um pedido de orçamento de alguém que disse que o texto estava bem escrito ou que já tinha sido revisado e, por essa razão, eu não teria muito trabalho.

3. AUTOR DO TEXTO

Revisor não é autor do texto. Há um limite de intervenção de revisores em textos. Ás vezes, há períodos no texto que precisam ser completados ou que estão esvaziados de sentido e precisam ser repensados para, posteriormente, serem reformulados e reescrito. Esse processo não necessariamente é responsabilidade do Revisor. O trabalho deste se encerra após a entrega do texto revisado.

Alguns autores confundem a atuação do Revisor com a de um escritor fantasma, especialmente para o caso de trabalhos acadêmicos. E isso é um problema sério. Há tantos mal entendidos. Revisores não são autores. Alguns clientes, na verdade, não gostam que haja intervenção além de questões ortográficas ou gramaticais.

Mesmo que o Revisor possa trazer alguma crítica ao texto ou tentar reescrevê-lo, sem modificar o conteúdo, para deixá-lo mais fluído, é preciso verificar o que foi acordado com o cliente e o que o Revisor oferece, que tipo de revisão para que não haja mal entendidos.

Se, por um lado, há quem acredite nesse tipo de Revisor, por outro, há os revisores que, também, assumem esse papel. Alguns, às vezes, de maneira extrema, outros, pela própria necessidade da profissão ou exigência de clientes. O problema dessa atuação surge quando há questões ilegais envolvidas nesse processo, como o caso de pessoas que desenvolvem trabalhos acadêmicos ou de clientes que associam, automaticamente, revisão de texto com essa atividade ilegal.

O Revisor pode até intervir um pouco mais no texto do cliente, por exemplo, reformulando períodos mal elaborados ou no próprio estilo do autor, para deixar o texto mais elegante ou adequá-lo a determinado gênero, mas, JAMAIS, deve alterar o sentido. Ele pode, no entanto, trazer reflexões, comentários, fazer uma crítica ao texto do autor.

4. REVISOR TRADUTOR

Constantemente, recebo convites para traduzir textos. Não vejo problema nesses convites, mas eu não sou tradutor. Ás vezes, recebo alguns pedidos aleatórios para desenvolver atividades que não se referem ao que eu faço ou que eu sequer mencionei em meu site. E isso revela os mal entendidos que existem sobre revisão de texto hoje. Alguns revisores chegam a se aventurar pelos caminhos da tradução.

Mas que fique claro: revisores não são tradutores e o serviço de revisão não contempla tradução. Não envie um texto a um Revisor, um trabalhos acadêmico, por exemplo, acreditando que a revisão inclui a elaboração do abstract de seu trabalho, ou seja, tradução.

5. REVISOR DESIGNER GRÁFICO

Revisão de Texto é diferente de formatação e do serviço de um designer. Alguns revisores trabalham com formatação e até trabalham em parceria com designer gráfico. Mas é preciso diferenciar revisão de formatação.

A revisão em si não inclui automaticamente formatação conforme ABNT, por exemplo. Se você enviar um trabalho para um revisor de textos, em que haja muitas imagens, não espere que ele edite as suas imagens e melhore, por exemplo, a qualidade destas ou faça um trabalho de diagramação em seu texto.

6. PSICÓLOGO

Brincadeiras à parte, é comum, durante a prestação dessa oferta de serviço, que revisores interajam com os seus clientes. E esse processo não constitui, necessariamente, uma relação harmônica, pois, de certa maneira, a atuação do Revisor envolve um “mergulhar no outro” e atuação no espaço deste.

Essa relação é muito delicada. Eu prefiro ser bastante claro com todos os meus clientes, desde o início da prestação de meus serviços (e prefiro perder um potencial cliente do que omitir alguma informação a respeito do meu serviço para iludi-lo a respeito de algo que ele espera ou que não seja verdade).

Além disso, quando reviso obras, especialmente biografias, não é incomum o fato de os autores escreverem longos e-mails ou deixarem longas mensagem em meu Whatsapp contanto a história deles, bastante preocupados com o serviço de revisão em si. Somos confessores de histórias, o cliente entrega mais do que o texto a cada um de nós.

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Revisão de Textos

Definimos o texto, objeto de trabalho do Revisor, como um encadeamento de palavras que forma sentido(s), expressa ideias e pensamentos, ou seja, é uma mensagem transmitida por meio de uma linguagem, seja ela verbal ou não verbal. No que diz respeito ao trabalho de revisão, tratamos do texto verbal, oral, mas principalmente escrito, que se dá por um encadeamento semântico de palavras, de frases, de enunciados que emitem uma mensagem expressa por um autor.
A Revisão Textual é um processo realizado após a criação do texto, dado pelo autor como finalizado, com o propósito de aprimorá-lo, corrigindo imperfeições referentes ao uso de regras gramaticais, de mecanismos de coesão e de coerência, de estrutura frasal e textual, de modo que a mensagem chegue com clareza ao leitor, sem que o Revisor altere o estilo original do autor. A Revisão Textual faz-se necessária a todo manuscrito que se pretende tornar público. Durante a revisão, são conferidos o uso da ortografia, a estrutura do texto, elementos de coesão e de coerência, o sentido produzido, o estilo do autor e o gênero textual em que se encaixa. No entanto, não é somente nos dias de hoje que o Revisor de textos encara o desprestígio da profissão escolhida. Ao longo dos tempos, o Revisor enfrenta a desconsideração por sua atividade por parte de estabelecimentos que trabalham com comunicação, assim como o desconhecimento do público leitor/ouvinte sobre a importância dessa profissão.
Com base no estudo de obras publicadas acerca da Revisão de Textos, o presente trabalho busca estabelecer os critérios essenciais para a formação de um bacharel em revisão de textos. Para isso pesquisamos, em meio a pouca bibliografia referente à Revisão de Textos, obras específicas que abordam sobre o assunto. Após investigação no campo impresso e online, selecionamos cinco publicações dedicadas essencialmente à prática de revisar textos, as quais são resenhadas a seguir.
Iniciamos, então, com o Manual de revisão, de Faria Guilherme, livro datado de 1967. O manual apresenta 133 páginas, oito capítulos e finaliza com um 13 apêndice contendo um glossário. Os capítulos apresentam os seguintes títulos: (1) Revisão: considerações preliminares; (2) Tipos e espécies de revisão; (3) Etapas da revisão; (4) Técnica da revisão; (5) O original; (6) O revisor; (7) Atributos do revisor; (8) Particularidades ortográficas. Nele, encontramos questões necessárias ao trabalho do revisor, as quais servirão de norte à prática cotidiana desse bacharel.
Guilherme começa sua reflexão dissertando sobre a importância da prática de revisar textos. A seguir, lança uma abordagem sobre os tipos de revisão, os quais não serão aprofundados neste trabalho, pois entendemos serem divisões elaboradas em 1967, portanto, ultrapassadas à época em que vivemos.
Na sequência, o autor faz importantes levantamentos sobre os atributos do revisor, tais como: ter domínio no uso da língua escrita, ser imparcial, ter conhecimento cultural etc., e destaca os limites da atuação desse profissional. Além disso, o autor dedica todo um capítulo para descrever a situação do revisor, ou seja, a pouca valorização da profissão, a falta de revisores capacitados e as condições precárias de trabalho nos estabelecimentos que lidam com o texto e necessitam da atividade exercida pelo revisor. Também aborda sobre técnicas de revisão realizadas por meio do uso de sinais gráficos e manuseio de originais, bem como cita alguns detalhes ortográficos que necessitam de atenção. Por fim, a obra apresenta um apêndice com glossário em que podemos encontrar a definição de uma série de palavras utilizadas ao longo do livro, e também de uso comum no exercício da profissão.
Apesar dos mais de 40 anos da publicação do Manual de revisão, esse livro ainda pode ser parte do alicerce para a formação de um bacharel em Revisão de Textos, pois contém noções básicas sobre o trabalho do Revisor. Com as colocações de Guilherme, já em 1967, podemos observar, de forma clara, quais são as aptidões do revisor e o grau de dificuldade enfrentado por quem opta por essa profissão, principalmente ao lidar com o pouco reconhecimento social voltado à atividade de revisar textos.
Seguindo a linha do tempo, a obra O livro: manual de preparação e revisão, de Ildete Oliveira Pinto, publicada em 1993, discorre sobre a preparação de originais para a publicação, em 191 páginas, divididas em 16 capítulos. Do capítulo três ao nove, Pinto descreve os procedimentos de preparação do livro impresso, explicando o encaixe de imagens, seções, formas de discurso, o uso de iniciais minúsculas e maiúsculas, nomes próprios, numerais e divisão silábica. Para dar sequência as suas abordagens, a autora, nos capítulos que vão do 10 ao 14, fala sobre abreviaturas, siglas e símbolos, citações, notas, referências bibliográficas e expõe padrões utilizados no processo de editoração. No capítulo 15, Pinto nos relata O processo de revisão de provas e conclui, capítulo 16, discorrendo sobre A estrutura do livro impresso. Além desses capítulos, em que a autora faz observações sobre o processo de construção do livro, o manual em questão contém um apêndice que dispõe dos principais sinais e símbolos utilizados na revisão, principais abreviaturas e termos usados em referências bibliográficas, abreviaturas dos nomes dos meses em vários idiomas, o alfabeto grego e um vocabulário onomástico .
Nessa obra, podemos observar uma preocupação maior com a estruturação do produto a ser publicado e com informações que auxiliam no trabalho de revisão. Desse modo, o livro apresenta as características de um manual, abordando, de maneira simples, dúvidas comuns ao exercício da revisão, no que diz respeito à estruturação do texto, com ênfase à normalização.
A importância da obra em questão está na atenção dada aos processos de construção de um livro a partir do ensino da norma culta nas estruturas do texto, como o uso de letras maiúsculas e minúsculas, ajustes de citações e notas, dentre outros detalhes fundamentais à publicação de uma obra. Essas colocações são imprescindíveis à formação de um revisor, uma vez que proporcionam uma noção do processo de publicação do livro e o aprendizado de normas comumente utilizadas no dia a dia desse profissional. O que contempla o desenvolvimento do presente trabalho são as abordagem de Pinto sobre a ligação do autor com o seu texto, a importância da norma culta em textos didáticos e científicos, e os possíveis erros a serem cometidos pelo revisor. Sendo assim, identificamos e selecionamos partes dessa obra que julgamos coerentes com a proposta deste trabalho.
Em 2000, Luiz Roberto S. S. Malta publicou o livro Manual do revisor, com 152 páginas, nove capítulos e um apêndice sobre o acordo ortográfico da época. Os nove capítulos do livro apresentam os seguintes títulos: (1) O que é Revisão de Textos; (2) Requisitos para ser um bom revisor; (3) A técnica – como se faz uma revisão; (4) O local de trabalho; (5) Instrumentos de trabalho; (6) Miscelânea – questões práticas; (8) Os preços; e (9) Exemplos que são exercícios e exercícios 6 Vocabulário de nomes próprios que podem apresentar dificuldades quanto à ortografia. Além de nomes de pessoas, também aborda nomes de países, regiões, cidades, museus, palácios, templos, mares, rios etc. 15 que servem de teste. O conteúdo da obra divide-se entre o esclarecimento do trabalho de revisão textual, juntamente com a descrição das aptidões necessárias ao revisor, e uma série de exemplos de textos publicados com erros diversos, acompanhados de sugestões para o exercício de revisão, em outras situações semelhantes a essas.
O Manual do revisor tem o propósito de destacar a importância do trabalho do revisor de livros, citando as exigências para se tornar um bom profissional. Além disso, apresenta os instrumentos essenciais de trabalho e disserta sobre a necessidade de se ter um local apropriado para a realização da revisão, bem como discorre sobre o mercado de trabalho do revisor de textos. Assim como fizemos na obra anterior, também nesta destacamos as informações consideradas essenciais a nosso estudo. Outras abordagens, não menos importantes do que as funções do revisor, mas que fogem aos nossos objetivos, são os exemplos citados na obra em questão. Malta apresenta erros comuns que podem passar despercebidos durante a edição de textos, os quais terminam por serem publicados com os referidos equívocos. Desse modo, essas demonstrações servem para exercitar o raciocínio do Revisor.
No ano de 2008, Aristides Coelho Neto contempla estudantes e profissionais da área de revisão de textos com o livro Além da revisão – critérios para revisão textual. Nas 304 páginas do livro, divididas em 11 capítulos, encontramos conhecimentos importantes ao Revisor de Textos. O autor inicia sua obra com o capítulo intitulado Texto e Revisão, em que descreve a origem e a evolução da escrita; após, discute sobre o polêmico assunto se o fim do livro estaria com seus dias contados e relata um breve percurso histórico da Revisão de Textos. No capítulo dois – O cenário em que nos situamos –, encontramos uma discussão sobre o cenário atual em que o Revisor se insere, que aborda a nova ortografia e o preconceito linguístico. O capítulo três, denominado Conceito de revisão, expõe as atribuições do Revisor, questões sobre originais e editoração e fala sobre os erros de Revisão.
No capítulo quatro, em Os parâmetros do revisor, há uma abordagem sobre a norma culta na escrita e na oralidade. Na sequência, o capítulo cinco disserta a respeito dos Instrumentos para revisão, seguido das etapas e das regras que direcionam O processo de revisão. O capítulo sete revela O dia a dia do Revisor. Em Memórias de Tevisão, capítulo oito, encontramos observações importantes feitas em 16 textos revisados. O capítulo nove disserta sobre Citações, notas e referências – normalização. Para finalizar, os capítulos dez – Teste seus conhecimentos (exercícios) –, e onze, – Tabelas práticas, listagens úteis –, apresentam atividades e tabelas utilizadas na prática de revisão.
Essa é uma obra rica em detalhes sobre o trabalho de Revisão Textual, esclarecendo, de modo simples e abrangente, temas importantes para a formação do Revisor. Isso torna a obra bastante significativa a quem se interessa pelo tema.
Podemos classificar o livro como sendo um dos materiais mais completos encontrados em nosso estudo. Além de uma abordagem voltada exclusivamente à profissão de Revisor, a obra traz textos e exemplos que servem de apoio para o aprendizado dessa prática. É um apanhado enriquecedor para estudantes e profissionais, trazendo aspectos do trabalho cotidiano do Revisor.
Por fim, encerramos nossa investigação bibliográfica com a obra Revisão de textos – da prática à teoria, de Risoleide Oliveira, publicada no ano de 2010 – material impresso mais recente encontrado ao longo desta pesquisa. O conteúdo do livro é composto por parte da tese de doutorado da autora, constitui-se de 150 páginas e se apresenta em duas partes. A primeira parte contém os seguintes títulos: (1) Uma inter-relação necessária; (2) Escrita social e discursiva, (3) Do discurso à estrutura. Neles, Oliveira trata de questões que dão base para a atividade de revisar textos, relacionando-as à Linguística Aplicada e à perspectiva dialógica de Bakhtin, além de integrar abordagens sobre a escrita e o discurso com o exercício da revisão de textos.
A segunda parte é formada por questões intituladas (1) Diálogo entre revisores; (2) Trajetória de uma revisora; e (3) Reflexões finais. A autora dedica-se a entrevistas com outros profissionais da área de revisão para traçar olhares distintos sobre a área em estudo. Para finalizar, Oliveira relata suas experiências vividas enquanto revisora de textos, juntamente com o trabalho docente em ensino básico e superior. A autora faz um levantamento mais recente da atividade do Revisor, comparando teorias da linguística com o dia a dia e as diversas situações relacionadas ao texto, com as quais esse profissional pode vir a se deparar. Nesse contexto, Risoleide disserta sobre a importância de voltar o olhar para os múltiplos contextos sociais em que um texto pode se enquadrar. Como podemos observar, os autores em destaque neste trabalho abordam, cada qual a partir de seus interesses, sobre as competências e as habilidades 17 necessárias ao sujeito que visa tornar-se um revisor de textos, os limites que devem ser estabelecidos durante o exercício de revisão e o material de apoio indispensável à atividade. São, então, as particularidades da atividade do revisor de textos, já postas em evidência por esses autores, que discutiremos a seguir. Em outras palavras, é com base nas obras já comentadas que seguimos o desenvolvimento do presente trabalho, dando destaque aos principais conceitos e abordagens de cada autor para que nossos objetivos sejam plenamente atingidos.

Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/rrt/files/2017/10/A-relev%C3%A2ncia-do-trabalho-do-revisor-de-textos.pdf

Compartilho com vocês, leitores, este texto, bastante revelador sobre Revisão de Textos de autoria de Mayara Espíndola Lemos, 2014, Pelotas. .

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Diferentes concepções sobre Revisão de Texto

Como fui professor a vida inteira, fui também, sem querer, um revisor — entre outras anotações, era isso que eu também fazia ao corrigir redações: revisão de texto, trocando esses por zês e vice-versa. Mas a língua é bicho indócil, seja falada, seja escrita, e o espectro de possibilidades é infinito. Começa da certeza absoluta — a ortografia, como grafar as palavras, uma área definida por lei — e vai até uma grande zona mais cinzenta e esotérica, capaz de provocar discussões metafísicas, no bar e na escola, as quais podem incluir colocação de pronomes (ele me tinha dito versus ele tinha me dito), aspectos de concordância (ouviu-se as vozes da rua versus ouviram-se as vozes da rua) e o gigantesco banhado da regência (vou no cinema versus vou ao cinema; lembro o horror ou lembro do horror? E, falar nisso, nesse ou neste texto?).

Conversando, ninguém nota nada; por escrito, o revisor é sempre um homicida sádico — Arrrá! Peguei no pulo! — e a caneta vermelha jorra sangue no A gente conversou bastante, e decidimos aprovar… como assim? “A gente decidimos?!” Ah, mas tem um “nós” oculto no segundo verbo! E então? Não decidiram ainda! 

Cristovão Tezza. A vingança dos revizores. In: A máquina de caminhar. São Paulo: Record, 2016, p. 99-100 (com adaptações). 

O revisor, além de gostar de ler — ler muito, ler sempre! —, precisa ter um carinho especial pela linguagem como um todo. Não só gramática normativa, não só linguagem informal. O revisor — assim como o professor de português — precisa ter a habilidade de ser um “camaleão linguístico”, expressão que ouvimos bastante na faculdade de Letras. 

Para ser um camaleão linguístico, o revisor deve estar sempre atento ao uso que as “pessoas comuns” fazem da linguagem, desde o advogado em seu juridiquês até o mais simples dos humanos com sua respectiva variante regional.

Carolina Machado. Manual de sobrevivência do revisor iniciante. Porto Alegre: Edição da Autora, 2016, p. 7. Internet: <http://revisaoparaque.com> (com adaptações).

A revisão é uma atividade complexa que pressupõe não apenas o conhecimento da língua, mas também de práticas socioverbais em diversas esferas da vida humana, considerando-se as transformações pelas quais passam a sociedade e a linguagem no mundo contemporâneo. Com efeito, esse mundo exige uma redefinição qualitativa do papel do revisor, não podendo esse profissional se restringir aos mesmos procedimentos e às mesmas concepções de revisão de épocas anteriores.

Risoleide Rosa Freire de Oliveira. Revisão de textos: da prática à teoria. Natal: EDUFRN, 2016, p. 144-5 (com adaptações).

Condições de produção são as características básicas do contexto interlocutivo acionadas pelos sujeitos, de forma consciente ou inconsciente, no decorrer do processo de elaboração do texto oral ou escrito. De forma geral, as condições às quais o produtor de textos precisa atender situam-se em um determinado tempo, espaço e cultura, e estão, em primeira instância, relacionadas aos seguintes aspectos: conteúdo temático, interlocutor visado, objetivo a ser alcançado, gênero textual, suporte e, até mesmo, tom.

Beth Marcuschi. Condições de produção do texto. Glossário CEALE – Termos de alfabetização, leitura e escrita para educadores. Internet: (com adaptações).

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Sinais de revisão estão ultrapassados?

Sinais de revisão estão ultrapassados?

Sinais de revisão não são usados por todos os revisores, nem necessariamente devem ser usados. Não vejo razão alguma para o uso desses símbolos durante o processo de revisão, para ser bem sincero. Eles não tornam a revisão melhor ou pior.

Para o cliente, então, esse uso é IRRELEVANTE, dominá-lo pode ser interessante para o Revisor que pretende trabalhar em uma editora ou em uma seção de Revisão de Textos, isso permite uniformizar a linguagem de revisão em um AMBIENTE DE TRABALHO com mais de um revisor, mas se LIMITA ao ranço do processo em si, oriundo da área de jornalismo, a respeito de editoração.

Com as tecnologias digitais, no entanto, bem como em relação aos avanços científicos na área de sociolinguística, linguística textual, podemos trazer reflexões científicas e mais significativas para pensar esse processo.

Em relação ao cliente, este não tem interesse em saber sinais de Revisão, tampouco é papel do Revisor ensiná-lo ou exigir que este tenha conhecimento desses símbolos, muito menos ter conhecimento de nomenclaturas gramaticais. Revisores, às vezes, querem agir como “messias” e, infelizmente, é importante deixar isto bem claro: REVISORES NÃO SÃO SALVADORES DE NINGUÉM! NUNCA FORAM E NUNCA SERÃO. Portanto, assim…

Revisor algum deve querer impor isso a um cliente. Essa atitude é, no mínimo, um exagero. Estava lendo um texto de um revisor que afirma, necessariamente, a necessidade do domínio dessa simbologia para a atuação em Revisão de Textos. Discordo completamente.

Esse tipo de requisito é argumento para quem não tem formação em linguística, a ciência que estuda a língua, e traz o ranço do ofício do jornalista para o universo de Revisão.

E, lamento informar, mas algumas teorias arcaicas na área de comunicação, ainda utilizadas no discurso de revisores desatualizados, bem como a supremacia da profissão ao ranço do jornalismo vigoravam no século passado; neste, as coisas mudaram bastante, principalmente com os avanços da linguística, especialmente na área de linguística textual, bem como em relação ao uso das tecnologias digitais, que são extremamente importantes para o universo de Revisão de Textos.

Primeiramente, como digo, sempre, em meus posts, a língua é objeto de estudo da linguística, não é objeto da área de comunicação social. Inclusive,  sugiro este post para reflexão sobre o que quero dizer em relação à decadência do jornalismo hoje. 

Ocorre que o profissional do jornalismo tem mais prestígio social e, por essa razão, se coloca (e é colocado) em um lugar indevido e por uma questão histórica de profissional da área. Desculpem a crítica, mas, em própria Teoria de Comunicação, muitos profissionais dessa área sequer sabem que os termos emissor e receptor são infundados e estão em desuso.

Na verdade, é complicado falar em comunicação, devemos falar em interações e aqueles que participam desse processo não estão em uma posição “passiva” ou “ativa”, tampouco devem se colocar dessa maneira. Esse pensamento, que, inclusive, chegou à sala de aula, e ainda é manutencionado, carece de crítica, de conhecimento científico.

É mais importante que o revisor tenha domínio de outras questões, de fato, relevantes para o trabalho dele, que tenha conhecimento de outras línguas, vivências, que tenha, minimamente, curso de mestrado, que tenha estudado antropologia, psicologia, filosofia e que saiba o que é crítica, bem como usá-la.

Dominar nomenclatura de símbolos em Revisão de Texto é uma atividade mecânica, que se resume, grosso modo, a “dar nomes aos bois” (faço a mesma crítica, em relação à educação, aos métodos falhos de ensino que insistem, na área de Língua Portuguesa, no ensino mecânico e decoreba de nomenclatura gramatical: “oração subordinada substantiva: bla, bla, bla…”).

As pessoas precisam pensar e não decorar nomenclaturas de símbolos. Bom Revisor precisa ter delicadeza, sensibilidade literária, senso investigativo aguçado, precisa ser um crítico das palavras, um analista críticos de discurso, precisa de sensibilidade artística para compreender o discurso não verbal, um linguista e não um reprodutor de nomenclaturas gramaticais ou de simbologias utilizadas em editoração.

Não gosto dessa discussão sobre “linguagem universal”. Há aqueles que argumentam que os sinais de revisão podem ser uma “linguagem universal” para o universo da revisão. Isso é uma piada?

O ser humano é bastante complexo, é muito limitador falar em uma linguagem universal. Essas propostas são inatingíveis para o plano humano. E quem acredita nelas tem o pensamento, no mínimo, limitado.

Quando estagiei, durante 1 ano, no Supremo Tribunal Federal, na Seção de Revisão e Padronização de Textos, eu tive de memorizar esses símbolos e utilizá-los em meu trabalho. Eles eram importante para uniformizar e formalizar, vamos dizer dessa maneira, as intervenções dos revisores nos textos revisados.

Não acredito, por exemplo, no entanto, que essas simbologias sejam mais eficientes do que o uso, por exemplo, do recurso Revisão de Texto do Word ou de outros softwares/ferramentas. Se você entregar um texto revisado com essas simbologias de revisão ultrapassadas a um cliente, ele, no mínimo, ficará frustrado e terá de perder bastante tempo para compreender as marcações.

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Conturbada relação entre autor e Revisor de Texto

Compartilho com vocês este texto, muito esclarecedor, sobre a relação entre autor e Revisor de Texto, autoria de Matheus Tussi, disponível no site biblio.info.


Vamos falar sobre a intervenção em texto alheio, sobre aquele profissional que tem a audácia de “mexer no meu texto”: o revisor. Figura ainda existente em redações de jornais e escritórios de editoras, mas cada vez mais um profissional autônomo que presta serviço do seu home Office. O revisor de texto, chamemos assim o responsável pelos serviços de preparação de originais, copidesque, revisão gramatical, revisão de tradução etc., tem uma complicada relação com o autor do texto – melhor, o autor é que tem uma relação difícil com o revisor, visto que, no mais das vezes por desconhecimento ou por falta de bom senso das partes, é o autor quem desaba a destratar o profissional aqui e ali.

Isso me lembra um tuíte ainda do início de 2015 que é um exemplo disso. A escritora Clara Averbuck publicou em sua conta do Twitter, em 19.01.15, o seguinte: “meu trauma com revisores cresce a cada texto que me foge das mãos. metem aspas onde não tem, itálico onde não deve, mas que saco”.

O desabafo de Clara gerou muitos apoios: “revisor tem a mania de achar que sabe o que a gente quer dizer” (@tatimrqs); “alguns revisores se apegam mto rigidamente às regras. daí vão revisar literatura dá nisso. a editora precisa saber selecionar” (@__perola_); “revisor deveria ter como primeira regra: jamais modificar sentido de frases que não são suas” (@gaidarjic); “revisor não é dono do texto” (@tomfernandes).

O escritor Cristovão Tezza, no texto “A vingança dos revizores”, publicado na Gazeta do Povo em 2013, já inicia declarando que vem mantendo, ao longo da vida, “uma relação de amor e ódio pelos revisores de texto”.

Mas será mesmo que essa relação tem que ser assim? E por que será?

Tratemos aqui da produção de um livro em uma relação editorial ótima, quando temos um editor atuante, que é conhecedor dos trabalhos textuais e que faz o meio de campo entre autor e profissional do texto. Deixo de lado, neste momento, a autopublicação ou quando o autor trata diretamente com o revisor, seja porque a editora assim possibilita ou porque se trata de um texto a ser publicado em outra plataforma que não a editorial.

Bom, no processo editorial de um livro já na língua em que será publicado, de um modo geral (sabemos que cada editora tem o seu método) o texto vindo do autor cairá nas mãos do editor ou de um assistente editorial. Este fará suas considerações, seus ajustes e remeterá a um profissional para a preparação de texto. Depois da preparação, o texto volta ao editor, que confere e aprova o trabalho, remetendo o texto ao diagramador. Ao final, a publicação passa pela revisão final. Esse processo terá idas e vindas, tantas vezes quanto o editor considerar necessário para a publicação.

Quero destacar os seguintes aspectos do trabalho com texto alheio que considero fulcrais para uma boa publicação:

1) Limites: Em uma preparação de texto, o profissional tem que saber o que fazer no texto. é necessário que fique claro o que a editora espera do trabalho, pois não há um método que funcione sempre. Cada obra merece uma atenção diferente. É ficção ou não ficção? De que área do conhecimento? Os membros dessa área são mais apegados à formalidade (como o direito) ou não (como a comunicação)? No texto, especificamente, as ideias estão confusas? Até que ponto o autor está aberto a intervenções? Esses aspectos devem estar bem acordados com o revisor. Cada obra, portanto, merece uma atenção especial. Não basta, então, o costumeiro “revisa esse livro”, como se o trabalho fosse objetivo e não houvesse questões específicas da obra a serem discutidas;

2) Padrões editoriais: é a editora quem define os casos que merecem itálico e os que merecem aspas. Qualquer palavra estrangeira ficará em itálico, apenas as menos conhecidas ou nenhuma? Haverá restrição ao uso de maiúsculas? A editora terá esses padrões, seja para todas as suas publicações, para aquela série ou mesmo para a obra em específico. Ela poderá buscá-los em algum manual existente ou ter o seu próprio. Portanto, o revisor não sairá adotando padrões sem que haja critérios preestabelecidos;

3) Preferências do autor: ainda assim, o autor terá suas preferências, que serão ou não aceitas na publicação. “Odeio itálicos”, diz o autor, então a editora definirá se realmente não usará itálico em nenhum caso. “Quero escrever País e Estado”, e se decidirá se isso é adequado ou não naquela obra. Essas definições serão passadas ao profissional do texto.

É fato que a relação que a editora mantém com o autor também incide nisso tudo: autores best-sellers ou que já dão uma boa resposta à editora em termos de vendas terão voz mais ativa, assim como aqueles que de alguma forma estão contribuindo no orçamento da publicação; já autores novos talvez tenham que se adaptar um pouco mais ao que for definido nessas questões. Então não vale o clássico: “o Saramago também faz isso”…

Algo que devemos considerar, fundamental em qualquer discussão nesse tema, é que língua é uso, e não imposição de regras. Afora a ortografia, regulada por lei (e ainda sim passível de boas discussões entre dicionaristas, gramáticos e a própria ABL), tudo o mais é opção, bom senso, adequação. E nisso, claro, haverá divergência. Um trabalho de intervenção, portanto, é sempre subjetivo: há muito mais adequação linguística conforme o gênero textual e o veículo pelo qual o texto é transmitido do que uma mera aplicação de “regras de português”, resultando em um grande campo de discricionariedade para o redator.

No mesmo texto de Tezza referido acima, o escritor diz:

Mas a língua é bicho indócil, seja falada ou seja escrita, e o espectro de possibilidades é infinito. Começa da certeza absoluta – a ortografia, como grafar as palavras, uma área definida por lei – até uma grande zona mais cinzenta e esotérica, capaz de provocar discussões metafísicas, no bar e na escola, o que inclui colocação de pronomes (“ele me tinha dito” x “ele tinha me dito”), aspectos de concordância (“ouviu-se as vozes da rua” x “ouviram-se as vozes da rua”) e o gigantesco banhado da regência (“vou no cinema” x “vou ao cinema”. Ou, nesse mesmo texto, lá em cima, “lembro o horror” ou “lembro do horror”? E, falar nisso, “nesse texto” ou “neste”?).

O texto é do autor, claro, sendo este o responsável final pelas escolhas de linguagem. Havendo divergência entre as mudanças/sugestões do revisor e as opções do autor, cabe a decisão à casa editorial, representada pelo editor, não devendo o revisor ser responsabilizado, pois um bom trabalho editorial supõe que cada um faça a sua parte – e não é parte do revisor tomar essas decisões, mas sim marcar as alterações que considera importantes, sugerir mudanças, informar usos.

Se houver algo que o revisor considere muito grave, e que será mantido por decisão editorial, então o profissional pode solicitar que seu nome não conste nos créditos, para não parecer que tais “gravidades” tiveram a sua chancela. O revisor é, portanto, um cúmplice do autor, e não seu algoz. Afinal, um bom produto final, com texto fluente e livre de imprecisões e problemas, é o objetivo de todos, ainda que o mérito acabe sendo sempre do autor, às vezes da editora e nunca, ah, nunca do revisor.

http://biblioo.info/o-autor-e-o-revisor/

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Mais de cem mil laudas revisadas

Mais de cem mil laudas revisadas

Escrevo este artigo para comemorar com vocês, seguidores e clientes, este marco em minha profissão como Revisor de Textos. Primeiramente, não posso iniciar este texto sem utilizar a palavra GRATIDÃO. Obrigado pela confiança, pelo carinho e pela divulgação de meus serviços. Sempre recebo indicação de algum cliente que já contratou os meus serviços. Além disso, gosto de interagir com os meus clientes e ofereço serviço personalizado, muito diferente de empresas que atuam na área, pagam estagiários para revisar textos de clientes, e não têm verdadeiro compromisso com o texto e com o cliente. Atuam, apenas, para fins econômicos.

 Eu criei o meu primeiro blogue em 2006. E, desde então, eu comecei a crescer por meio da internet. Esse crescimento tomou uma dimensão tão grande em minha vida que eu tive de escolher entre continuar trabalhando como Professor ou me dedicar à Revisão de Textos. Os meus sites totalizam mais de 1 milhão de acesso e o meu canal no Youtube, apesar de ser pequeno, mais de 400 mil visualizações. Escolhi ser Revisor e dar mais atenção aos meus clientes, embora também atue como Professor (mesmo que indiretamente como o caso em que ofereço consultoria). Investi em minha formação, fiz curso de especialização, mestrado, bem como vivi em vários países nos últimos anos. Estive em contato com várias culturas e com várias línguas, o que, com certeza, aguçou bastante a minha percepção e senso crítico.

Muito além da academia, em que desenvolvi pesquisa, aprendi várias teorias, atuei em extensão e em ensino, decidi viver o momento presente e me lançar na espontaneidade, utilizando ferramentas digitais para me conectar com os meus clientes, tratando, por meio de meu canal no Youtube, bem como de meus sites e blogues, de questões cotidianas relacionadas à tríade: texto, discurso e sociedade. Por meio de meu Instagram, tanto o profissional quanto o pessoal, eu compartilho as minhas vivências, para, também, me apresentar aos meus seguidores e clientes como uma pessoa real, do dia a dia, como eles o são.

Cheguei à contagem de mais de 100 mil laudas revisadas no início deste ano de 2019. E eu me orgulho de eu mesmo ter revisado cada uma delas, (mesmo sendo uma pequena empresa), sem explorar ninguém. Também acredito que o meu preço, apesar da qualidade de meus serviços e experiência, é bastante acessível, pois, como disse, comprometo-me socialmente. O dia em que decidi ser Professor coloquei esse princípio para nortear os meus caminhos. Mesmo atuando como Revisor, eu mantenho-me com o mesmo princípio. E assim vou caminhando. Vejo o meu trabalho como uma maneira de ajudar as outras pessoas e, por meio dele, bem como da interação com os meus clientes, aprender e evoluir.

Gosto muito do que faço. E, mesmo depois de tantos anos revisando e formatando textos, com olhar sempre desconfiado a respeito de tudo o que me passa pela frente, tenho fôlego e muita energia (boa) para seguir nesta caminhada.

Levo a sabedoria de que tudo está, de alguma maneira, conectado: texto, discurso, sociedade e sujeito. E que, ao contrário do que muitos pensam, o trabalho nos dignifica, nos engrandece e nos empodera. Ele se concretiza por meio de nossa dedicação, persistência e se revela por meio de nossos sonhos realizados.

Gratidão a todos os meus clientes e seguidores. Nada acontece por acaso e ninguém faz nada sozinho.

 

 

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