O ego e o título no Brasil: razões para não fazer Pós-Graduação

Se a principal motivação para entrar em um mestrado ou doutorado for o desejo de ser chamado de “dotô” ou para se desviar dos próprios demônios, o caminho será de profunda frustração (afinal, você já sabe, alecrinho, que o seu espelho interno não tem filtro de Instagram).

O acúmulo de títulos não confere sabedoria nem superioridade moral, tampouco retira as suas angústias de ser brasileiro(a) (isso se resolve no psicólogo ou com discursos e ações mais coerentes, e não por meio do “faça o que eu digo, e não o que eu faço”; “menas”, “malandrão/malandrona”!). Ingressar na Pós-graduação apenas para sustentar vaidade intelectual é um equívoco: o processo exige resiliência, solidão e um desprendimento que o orgulho não consegue suportar.

Para compreender essa obsessão pelo título, é preciso adentrar no nosso passado colonial. Historicamente, o título de “doutor” funcionava como um fator de distinção de classe, separando a elite agrária do restante da população. Esse ranço histórico, ainda, persiste (mesmo que muitos se digam “dotores”, mas sem o devido título). Contemporaneamente, no “Brasil” a busca pelo mestrado e pelo doutorado não surge de uma inquietação interna ou de um desejo genuíno de solucionar problemas estruturais do país. Em vez disso, manifesta-se como uma busca desenfreada por status socioeconômico e validação externa. Quer-se o bônus do prestígio sem o ônus do compromisso social que a produção de conhecimento exige, pensamento tipicamente brasileiro.

Essa inversão de valores é o reflexo de uma Educação Básica e Superior deficiente e tecnocrática. A educação brasileira é utilitarista, com enfoque na reprodução de conteúdos e na obtenção de diplomas, e não no desenvolvimento do pensamento crítico e autônomo.

Há uma falta de filosofia e de base humanística nas salas de aula. Sem o exercício do questionamento filosófico, os sujeitos não aprendem a olhar para dentro ou a contextualizar seu papel no mundo. O resultado é a formação de técnicos especializados na pós-graduação, mas analfabetos funcionais em termos de autoconhecimento e cidadania.

Longe de ser um local de transcendência, a Pós-graduação estrita no Brasil frequentemente reproduz e amplifica as piores mazelas da sociedade brasileira. A academia desvaloriza a própria produção nacional e idolatra teorias e intelectuais eurocêntricos ou norte-americanos (chegam ao cúmulo de exigir redação de dissertações e teses em Língua Inglesa. Ora, o sujeito tampouco domina a própria língua para se expressar em um idioma algures…). Há um esforço desmedido para validar pesquisas no exterior, enquanto os problemas locais permanecem negligenciados.

O ambiente acadêmico pode se tornar extremamente perverso. Encoberto de “excelência”, mascaram-se dinâmicas de assédio moral, vaidades institucionais, disputas mesquinhas por verbas e uma competição predatória entre pares. Em vez de solidariedade intelectual, o que se observa é a perpetuação de castas e privilégios.

Se não repensarmos a relevância da Pós-graduação para a sociedade como um todo, continuaremos a produzir teses que não sustentam um dos pilares da universidade, qual seja: a extensão, o que significa levar o conhecimento produzido na Pós-graduação para a sociedade, o qual tem sido produzido com a finalidade de inflar o ego de quem as escreveu, enquanto o país padece da falta de pesquisadores comprometidos com mudanças sociais.

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