O Revisor de Texto subversivo

O Revisor de Texto subversivo

Estava lendo uma obra sobre o Ofício de Revisão de Texto, e achei os dizeres da autora bastante valiosos. Decidi, portanto, compartilhar o trecho com vocês seguidores e clientes para levá-los à reflexão sobre o universo de Revisão de Texto(s). Os parágrafos a seguir tratam da fragilidade a respeito da intervenção do Revisor no texto de quem o escreve, o autor.

________________________________________________________

Subsidiada pela vertente psicanalítica, Arrojo (2003) faz uma análise da relação autor-revisor, tendo por base o livro História do cerco de Lisboa de José Saramago . Nesse trabalho, a autora relaciona a decisão tomada pelo personagem Raimundo Silva, revisor de uma editora lisboeta, de acrescentar um “não” à linha que “redondamente afirma que os cruzados auxiliarão os portugueses a tomar Lisboa” com o mito da torre de Babel. Segundo ela, ao pôr um “não” em um livro escrito por outra pessoa, ignorando a hierarquia entre autor e revisor bem como todas as normas que regem seu trabalho, Raimundo transforma-se em um revisor “subversivo”. Assume, assim, com esse “ato de consciente e extrema interferência”, o desejo de reescrever o texto revisado por ele. Para a autora, há na rebelião do revisor Raimundo da Silva um desafio comparável ao dos temerários construtores da torre de Babel que visavam a atingir o céu, punidos por Deus com a perda da língua original, o que estabeleceu entre eles confusão e consequente impossibilidade de levar adiante o projeto da torre.

Para Arrojo (2003, p. 204), fica “claro o paralelo que se pode estabelecer entre a radical assimetria de poder que separa os humanos e Deus, no mito de Babel, e a oposição hierarquicamente marcada entre revisor e autor, no universo armado em História do cerco de Lisboa. Na avaliação da autora, essas relações de conflito são

consequência direta de concepções de “original” e de autoria que partem de noções essencialistas de linguagem, segundo as quais seria possível congelar significados e protegê-los em “invólucros” textuais que deveriam ser abordados com todo o cuidado. […] significados originalmente definidos pelo autor (ARROJO, 2003, p. 193, grifos da autora).

O revisor de texto ainda é visto por alguns escritores, conforme as vozes aqui resgatadas o demonstrarão, como um profissional que deveria apenas corrigir os erros gramaticais, sendo sua situação profissional, como aponta Arrojo, (2003, p. 193): “[…] geralmente associada a uma reputação de traidor marginal e de escritor desajeitado”.

Fonte: OLIVEIRA, Risoleide Rosa Freire de. Revisão de Textos: da prática à teoria. Disponível em <https://repositorio.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/21448/3/Revis%C3%A3o%20de%20textos%20(livro%20digital).pdf>. Acesso em 23 de agosto de 2018.

#O Revisor de Texto subversivo

Share on Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *