Por que não costumo Revisar textos de estudantes de graduação?

Sobre o meu valor e atuação

Construí minha carreira Revisando teses e dissertações, e coorientando pesquisadores. Minha experiência profissional não é fruto de improviso, tampouco de um “corre-corre para ganhar uns trocados”. Eu a construí por meio de propósito e buscando agregar valor à vida e aos textos de pesquisadores e intelectuais, que se indentifica(ra)m comigo e acompanha(ra)m a minha trajetória.

Não por acaso, durante dez anos, também atuei como Revisor de uma revista científica Qualis A1, o que, por si só, revela o nível de minha atuação. Considerando essa trajetória, posiciono-me da seguinte maneira: NÃO COSTUMO E NÃO GOSTO DE REVISAR TEXTOS DE ESTUDANTES DE GRADUAÇÃO.

Explico… a graduação, no Brasil, constitui-se, ainda, como um espaço de imaturidade intelectual e de desprezo pela Educação. O estudante não domina a linguagem (escrita) formal, não sabe realizar pesquisa (não tem noção algum sobre Metodologia de Pesquisa Científica), e, ainda assim, acredita que o problema de seu texto é simplesmente “gramatical”, como se pensamento e linguagem estivessem desassociados.

Também não se pode ignorar a ausência de poder aquisitivo e, sobretudo, o menosprezo completo pela atuação do Revisor de Textos. O estudante de graduação, formado em uma cultura que insiste em afirmar que a Educação não tem valor (mas que paga caríssimo por produtos digitais na internet, tanto de blogueiras como de coaches), projeta sobre o Revisor tanto a expectativa do milagre quanto o desdém pelo ofício. Exige rigor, mas rejeita qualquer responsabilidade intelectual e quer reestabelecer com aquele o cordão umbilical de quem, mediocremente (ui), o inseriu neste mundo (o mundo não lhe deve nada; e o Revisor, menos ainda, malandrão/malandrona).

Desprezo, reciprocidade e incompatibilidade

Estudantes da graduação, comumente, reproduzem, de maneira fidedigna, as sombras mais perversas de seus genitores (o que é reflexo inconsciente, inclusive, de outras vozes que ainda os atravessam. Ora, “Brazil”, beleza é diferente de juventude. “Menas”!): o improviso elevado a método, a ignorância defendida como autenticidade, a hostilidade ao conhecimento e a recusa sistemática da responsabilidade.

Muitos não superam esses traços mesmo ao longo de uma vida inteira; esperar que jovens recém ingressos no Ensino Superior o façam é desconhecer a profundidade do problema. Não se trata, simplesmente, de idade, mas também de formação — ou da ausência dela. Ao menos no mestrado e doutorado, há mais consciência e tentativa de melhora.

Além disso, textos produzidos por estudantes da graduação são, na maioria das vezes, extremamente ruins. Trata-se de uma escrita que não comporta a minha Revisão, e que exige mais maturidade. E Revisão não é alfabetização tardia, tampouco reparação do malfeito estrutural, produzido ao longo de anos de escolarização fracassada.

Por isso, não costumo revisar textos de estudantes de graduação, pois, em muitos casos, não há valorização nem comprometimento, nem com o próprio texto, tampouco com o meu trabalho. E os alecrinhos se retiram por conta própria, sem que eu tenha de fazer esforço algum (sim, “Brazil”; é intencional).

O meu trabalho é grande demais, rigoroso demais e intelectualmente exigente demais para que o confundam com a tentativa de consertar aquilo que não foi construído. Não cabe a mim assumir a responsabilidade pelo fracasso formativo que antecede o texto. Revisão é trabalho de precisão sobre pensamento já existente; não é milagre, remendo ou indulgência. Contra isso, minha atuação é inegociável.

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