
Nem todo Artigo, Dissertação ou Tese apresenta uma seção de Resultados e Discussão. Essa organização tem influência de padrões de escrita internacionais, como o modelo IMRaD (Introduction, Methods, Results and Discussion), comumente utilizado em textos das ciências naturais, biomédicas e no caso das ciências experimentais.
Nas Humanidades, especialmente diante de determinados métodos e maneiras de organizar e pensar a pesquisa, apresentam-se os resultados mais comumente em uma seção intitulada de Análise, Análise e Discussão… Isso ocorre porque, em muitas pesquisas qualitativas, com orientação interpretativista, o “resultado” não existe independentemente da análise, ou seja, ele surge da própria interpretação do pesquisador.
A separação entre Resultados e Discussão como característica de um gênero textual
Do ponto de vista dos estudos de gêneros acadêmicos — gênero é um texto em um contexto: existe o gênero Artigo, Memorial Acadêmico etc.) —, as seções de um Artigo, Dissertação ou Tese correspondem a etapas relativamente estáveis da organização do discurso científico. Cada seção tem uma finalidade própria e contribui para a construção da argumentação, de maneira a atender às expectativas da comunidade acadêmica em relação à forma de comunicar uma pesquisa.
No caso do modelo IMRaD, pode-se pensar cada questão retórica a uma determinada seção, conforme quadro 1.
Quadro 1 – modelo IMRaD
| Seção | Pergunta |
| Introdução | Por que a pesquisa foi proposta? |
| Métodos | Como ela foi feita? |
| Resultados | O que foi encontrado? Privilegia a apresentação ou descrição dos achados da pesquisa, não a interpretação. Dados brutos. |
| Discussão | O que esses achados significam? Privilegia a interpretação do pesquisador fundamentada no referencial teórico me metodológico. Mais elaborada. |
Fonte: elaborada pelo autor.
Nesse sentido, a seção de resultados revela o que a pesquisa encontrou. Os resultados constituem uma seção predominantemente descritiva. Suas características relativamente estáveis são: organização conforme os objetivos ou perguntas da pesquisa; apresentação sistemática dos dados; descrição de tabelas, gráficos, quadros ou categorias; pouca ou nenhuma avaliação do pesquisador; ausência de explicações causais mais amplas; linguagem mais objetiva. Comumente, predominam verbos como: observou-se; encontrou-se; identificou-se; verificou-se; os dados revelam; na tabela x, apresenta-se…
A função dessa seção é informar ao leitor o que “ocorreu”, antes que este saiba o que, de fato, significa.
Discussão
A finalidade da seção discussão é bem diferente da anterior. Por meio dela, busca-se responder questionamentos como: o que os resultados significam? Eles confirmam ou contradizem estudos anteriores? Como eles dialogam com a teoria? Que implicações possuem? Quais são seus limites?
É, portanto, uma seção bastante argumentativa, marcada por: interpretação, comparação com a literatura, explicação de convergências e divergências, construção de argumentos, avaliação dos limites da pesquisa; implicações teóricas e práticas, sugestões para pesquisas futuras.
Na discussão, o enfoque recai sobre a importância dos resultados, isto é, sobre o motivo pelo qual eles importam.
Por que essa organização faz sentido nas ciências experimentais?
Nas áreas quantitativas e experimentais, há uma preocupação com a distinção entre: observação e inferência. Por exemplo:
Resultado: o grupo A apresentou média de 18 pontos, enquanto o grupo B apresentou média de 12.
Discussão: a diferença entre o grupo A e B sugere que o tratamento teve efeito positivo, em consonância com os estudos de X e Y conforme Xavier (2022).
Em termos científicos, a comunidade considera relevante a separação dessas duas “operações” intelectuais. Em primeiro lugar, apresenta-se o dado. Em segundo, argumenta-se sobre seu significado. Essa segmentação permite um pouco mais de transparência do raciocínio científico.
Por que não faz tanto sentido (e não é tão comum) nas humanidades?
Em pesquisas qualitativas, por exemplo, no caso de uma análise de entrevistas, o pesquisador poderia escrever:
Os entrevistados associam a escola principalmente ao conceito de pertencimento.
Esse enunciado não constitui uma simples descrição. Para formulá-lo, o pesquisador precisa selecionar trechos, agrupar falas, criar categorias, interpretar sentidos, ou seja, o resultado já constitui uma interpretação.
É complicado separar completamente a apresentação dos dados de sua análise. Por essa razão, em muitas áreas como Educação, Linguística, Antropologia, História, Sociologia e Comunicação, comumente, há capítulos intitulados de: análise, análise de dados, discussão dos resultados, análise e interpretação. Neles, apresenta-se um excerto do corpus, interpreta-se esse excerto e relaciona-se imediatamente à teoria.
A diferença é também epistemológica e metodológica
Essa organização textual reflete duas formas distintas de produzir conhecimento. Nas ciências experimentais, pressupõe-se que os dados podem ser apresentados antes de serem interpretados.
Nas Humanidades, frequentemente se assume que não há dado “bruto”: todo dado é produzido por um processo que envolve etapas como seleção, categorização e, principalmente, interpretação. Não por acaso, muito comumente, as humanidades apresentam uma série de etapas para o pesquisador lidar com questões anteriores à coleta de dados, se for o caso, materializadas nos gêneros acadêmicos como as chamadas notas de campo ou mesmo, em relação à apresentação dos dados, ocorre uma limpeza destes por meio de técnica de preparação como a transcrição.
Ou seja, em exatas, os resultados tendem a anteceder a argumentação. Em humanas, os resultados, frequentemente, são construídos pela própria argumentação.
Características relativamente estáveis
No quadros 2, apresentam-se características mais ou menos estáveis de cada uma das seções abordadas.
Quadro 2 – características estáveis de resultados e discussão
| Resultados | Discussão | ||
| apresenta achados | interpreta achados | ||
| descreve dados | explica dados | ||
| organiza informações | constrói argumentos | ||
| responde ao objetivo de pesquisa | responde ao problema teórico | ||
| pouca avaliação | forte avaliação | ||
| poucas citações (em geral) | muitas citações para dialogar com a literatura | ||
| foco no corpus ou nos dados | foco no significado dos dados | ||
Fonte: elaborada pelo autor.
Mesmo nas ciências naturais, há grande variação. Muitos periódicos adotam uma seção única intitulada Resultados e Discussão, especialmente quando cada conjunto de resultados é imediatamente interpretado. Da mesma forma, em pesquisas qualitativas, nas ciências sociais e em algumas áreas aplicadas, a combinação de resultados e discussão é uma escolha aceita, a depender da organização da pesquisa. Essa organização depende do tipo de pesquisa, das normas de programa de Pós-graduação ou do periódico e, muitas vezes, da vaidade e dos interesses dos pesquisadores.