Queridos leitores e clientes, recentemente, li o livro do Professor Marcos Kisil, “Filantropia: ciência, prática ou arte?”, publicado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP. A obra tem cerca de 120 páginas, não é longa. E a leitura, atualíssima, é relevante para pesquisadores ou quem trabalha com ciência. Assim,
A pergunta central do livro é: filantropia pode ser uma ciência? O autor verifica se a filantropia cumpre os critérios que uma área precisaria para alcançar reconhecimento científico. Cita Kuhn, Popper, Feyerabend, autores que eu já conhecia de outros contextos, mas nunca tinha visto aplicados à temática da filantropia dessa forma. Primeiramente,
Achei interessante que ele não força uma resposta. Em alguns pontos a filantropia cumpre os critérios de ciência, em outros não, e ele deixa isso em aberto. Diferentemente do que observo em textos acadêmicos, influenciado pela meu próprio ofício de Revisão de Textos (afinal, reviso dissertações e teses há mais de duas décadas): pesquisadores tentam provar que as próprias áreas são científicas, inclusive utilizando o termo “empírico” sem muito fundamento (risos), Kisil expõe a fragilidade do próprio campo em vez de defendê-la a qualquer custo (aplausos!).
Em algumas partes, o Professor apresenta o conceito de “ciência derivada”. A ideia é que hááreas, como a bioinformática, econometria, que não têm teoria própria, mas se desenvolveram emprestando método de outros campos. Ele ressalta que, por meio desse caminho, a filantropia poderia adquirir “status acadêmico”, não por ter uma teoria original. Não sei se concordo totalmente, mas achei bem argumentado.
O livro também expõe duas correntes com perspectivas distintas. De um lado, Porter, Kramer e Bernholz defendem que a filantropia deveria orientar suas decisões com base em dados e métricas. De outro, Rob Reich e Michael Edwards argumentam que essa obsessão por rigor pode destruir o que sustenta o ato de doar, o qual é bastante subjetivo.
Nos capítulos finais, ele fala sobre MacKenzie Scott e traz uma crítica de Peter Frumkin às grandes fundações filantrópicas. A conclusão dele é que ciência, prática e arte dependem uma da outra: sem ciência a prática fica sem direção; sem prática a arte não sai do papel; sem arte a ciência ignora a parte humana do problema que tenta resolver.
Recomendo a leitura desta obra, especialmente para pesquisadores e cientistas. Não porque o livro responde a pergunta que ele mesmo propõe, mas porque expõe muito bem o problema. Poucos autores admitem, com tanta clareza, que o próprio campo de estudo ainda não sabe bem o que é.
A ciência hoje depende de verbas não oriundas do Estado. Universidades públicas estão sofrendo cortes de verba no Brasil, mas não somente em nosso país. Nesse sentido, quando o financiamento público diminui, fundações privadas e doadores individuais assumem esse papel. Por exemplo, a Gates Foundation banca pesquisa em saúde global, Chan Zuckerberg Initiative financia neurociência e, especificamente no Brasil, o Itaú Social financia, por exemplo, editais de pesquisa aplicada em educação pública.
O problema, e acho que é exatamente o que o livro enfoca quando fala do “Leviatã filantrópico” do Frumkin, é que quem financia, por sua vez, influencia as pesquisas que os pesquisadores realizam.
. E este é um ponto que o pesquisador deveria pensar com mais cuidado. Se uma fundação bilionária decide que tal doença importa mais que outra, por exemplo, fala-se mais da vontade de quem tem dinheiro do que da agenda de pesquisa.
KISIL, Marcos. Filantropia: ciência, prática ou arte? São Paulo: Instituto de Estudos Avançados, Universidade de São Paulo, 2026. 120 p. ISBN 978-65-87773-88-9. DOI: 10.11606/9786587773889.